ser jornalista é uma declaração de amor

jornalismo é uma declaração de amor

lá em maio eu participei de um evento de comunicação, inovação e tecnologia, o festival Path. foi um fim de semana incrível cheio de palestras maravilhosas (incluindo uma com a Jess e a Ari do Indiretas do Bem), mas a que me deixou mais encantada foi uma palestra chamada ‘o futuro do jornalismo é mais humano‘, em que o Denis Burgierman (ex-diretor de redação da Superinteressante e que agora tá no Nexo) e a Juliana Wallauer, do Mamilos, eram os convidados. eu juro que eu saí do painel com muito orgulho de ser jornalista.

tem quem diga que a minha profissão está morrendo – já até me falaram diretamente que eu serei substituída por um computador (alô, sensibilidade), mas eu confesso que nunca dei muita bola pra esses cavaleiros do apocalipse, por mais que as notícias de passaralhos (as demissões em massa) também me deixem com o coração apertadinho. eu sempre acreditei que estava fazendo algo importante – mesmo nos dias que só escrevia sobre o que as celebridades estavam fazendo por aí – e isso não mudou só porque, na teoria, o mercado de mídia está caindo aos pedaços.

na palestra com o Denis e a Juliana, eu fiquei maravilhada porque eles me deram uma esperança. querendo ou não, as pessoas sempre vão precisar do jornalismo. é uma profissão que leva pra todo mundo o que tá acontecendo de verdade por aí. por mais que as redes sociais façam isso muito bem, a gente ainda precisa de um editor para aprofundar e juntar todos os detalhes num lugar só, a gente precisa dele pra editar.

o problema é que, como a vida no mundo, o jornalismo representa exatamente o que as pessoa estão passando. e todo mundo perdeu a confiança. no jornalismo, no governo, nos outros. em si mesmo. isso é o que me deixa mais de coração partido. por um tempo, eu também deixei de confiar, e reaprender é um treino diário. não tem como virar essa chave de uma hora pra outra.

quando a gente se sente tão desesperançado, quando tudo parece tão errado, como é possível ter esperança de que as coisas vão melhorar? é bem impossível, né? mas, na real, não é não. o Denis disse, naquele sábado gelado de maio, que o sistema de imprensa como a  gente conhece hoje não funciona mais – e eu concordo. acho que a internet ainda é vista como um problema e tem muita empresa grande por aí que não soube desapegar do passado para entrar na nova era. e eu acho meio prepotente da nossa parte tentar adivinhar como vão ser as coisas daqui pra frente – eu não sei mesmo, vou ter que esperar elas acontecerem pra descobrir.

a Juliana parecia mais otimista (lembro muito bem que o Denis já chegou falando ‘eu não tenho ideia se o jornalismo tem futuro, nem se ele é mais humano‘), e trouxe um segundo ponto que eu achei o mais incrível de todos: o que o jornalismo (e o mundo, na verdade) precisa é de interesse. a gente tem que ter mais interesse no que tá rolando ao invés de só querer apontar o culpado de um lado ou de outro. todo mundo quer brigar no Facebook, mas ninguém quer entender como a outra pessoa pensa e porque ela pensa o que pensa.

isso bateu bem fundo no meu coraçãozinho jornalista. é isso mesmo. ninguém quer entender porque as pessoas pensam como pensam e porque o sistema todo tá do jeito que tá. todo mundo só quer achar um culpado, só quer encontrar um motivo pra brigar. e nesse meio tempo fica todo mundo correndo atrás do rabo sem saber pra onde correr, porque a sensação é que a coisa piora a cada dia.

quando eu escolhi ser jornalista eu lembro que fiz essa escolha porque queria mudar o mundo. hoje eu ainda quero – na verdade, hoje eu sei que vou -, e percebi que as palavras são a minha principal ferramenta para isso. é a forma que eu me comunico com você todos os dias, sabe? através dos meus textos, eu consigo colocar um pouquinho da minha meta em cada palavra e você sente um gostosinho no coração sempre que lê. o pulo do gato (sempre amei essa expressão) pra mim é conseguir fazer isso em todos os textos – os do blog, os que são pra trabalho, os que vão para as redes sociais…

cada dia mais eu sinto que consigo fazer isso, que uno um pouco do que o Denis falou com o que a Juliana defendeu tão fortemente, e ajudo a mudar o mundo, um texto por vez. o jornalismo me permite entrar em contato com um montão de gente todos os dias – as pessoas incríveis com quem eu trabalho, quem lê o que eu escrevo, as pessoas que eu entrevisto – e é uma rede de interesse que aumenta todos os dias.

ser jornalista é uma declaração de amor porque num momento em que todo mundo desistiu de acreditar nas palavras, eu prefiro continuar acreditando – já dizia Desmond Doss:

‘Com o mundo tão dedicado em se destruir por completo, não parece algo tão ruim eu querer colar algumas partes de volta no lugar’

(aliás, se você não assistiu Até o Último Homem, faça o favor de assistir nesse exato instante – eu espero você voltar)

com tanta informação falsa por aí, tanta notícia ruim, tanta notícia tendenciosa, qual o problema em querer colocar um pouco mais de amor nas informações que a gente precisa ter? qual o problema em querer se interessar pelos outros pra entender de verdade o que eles estão pensando, o que estão sentindo?

é, jornalismo é um exercício de interesse: de querer entender o outro ao invés de julgá-lo, de observar e analisar ao invés de sair por aí dando opiniões como se fossem balas juquinha (amo bala juquinha, gente) é repassar a verdade dos fatos e fazer quem tá do outro lado pensar e questionar a realidade em que vive.

pode ser uma visão meio ultra otimista – e até meio Pollyanna – das coisas, mas eu amo muito a minha profissão e gosto de acreditar que ela tem um propósito. amo passar horas escrevendo, amo correr atrás de fonte, amo cobrir evento louco, amo usar as palavras escritas para me comunicar com as pessoas. amo, amo, amo, amo. vai ver é por isso que pra mim não existe crise, não existe tempo feio, só existe o arquivo do Word aberto e o cursor piscando, esperando eu encontre as melhores palavras pra você lembrar um pouquinho de quem é.

e aí tanto faz se eu tô falando de moda, de política, de bullet journal ou de armário cápsula. só o que me importa, de verdade, é você terminar de ler o texto com o coração quentinho e a sensação de que entende um pouco mais do que antes a forma como o mundo funciona e como é que você se encaixa nesse contexto.

o jornalismo é ferramenta. o computador é ferramenta. a pauta é ferramenta. é tudo ferramenta pra meta que eu escolhi no meu coração e que cada dia fica mais clara. o jornalismo tá em crise? puxa, depende. o que você considera como ‘crise‘? se for falta de propósito, talvez você tenha razão. mas, nesse caso, eu sei que tá tudo bem comigo, porque o meu propósito vai muito bem, obrigado.

banner beda desancorando

12 comentários

    1. Maki respondeu Nana

      eu acho esse filme maravilhoso demais ♥

  1. Yuri S comentou:

    “quando a gente se sente tão desesperançado, quando tudo parece tão errado, como é possível ter esperança de que as coisas vão melhorar?” pareceu trecho de música kkkkkkk adorei o texto, faço jornalismo e super tenho esperança na profissão. todo mundo agora só fala em crise crise crise mas vamos com calma, o mundo ta de pernas pro ar mas da pra voltar pro lugar ~jornalista e seu sonho de mudar o mundo~

    eu concordo que o jornalismo é uma ferramente importantissima na vida de todo mundo (talvez as pessoas nem enxerguem isso) mas é a verdade. o que somos nós sem informação?

    1. Maki respondeu Yuri S

      num é, Yuri? também acho
      (menino, será que é hora de eu começar a escrever música? ahahha)

  2. Acabei de me formar em jornalismo (julho 2017) e cara, sinto muito orgulho da minha profissão! Vi muitos colegas dizendo que fariam outra graduação, que não queriam se formar para com o tempo virar youtuber, muita gente falando mal mesmo e isso me parte o coração… Compreendo que talvez a pessoa não tenha se identificado com a profissão e tal, mas acho muito desnecessário sair falando mal e quem fica na área irá passar fome.
    Lembro que no terceiro período o professor estava dando uma aula sobre jornalismo impresso e me perguntou porque o jornal impresso não iria morrer. Na hora eu fiquei bem assustada com a pergunta, mas depois de pensar bastante (por alguns segundos já que a turma estava encarando, kkkkk), respondi que o jornal não iria acabar porque ele seria reformulado e acredito que é isso que precisa acontecer com todas as áreas do jornalismo: uma reformulação para quem se interessa, quem lê, quem consome, quem quer saber o que de fato está acontecendo, quem quer saber o lado A e o lado B.
    Me encanta quem ainda acredita no futuro do jornalismo. Que é preciso do humano para levar a sensibilidade, a humanização. Computador nenhum pode substituir isso! Talvez eu tenha fugido um pouco do tema do post, mas só queria manifestar minha opinião aqui e dizer que gostei muito do teu texto, da tua declaração pela profissão.

    Um beijo enorme ❤

    1. Maki respondeu Karina Marques

      Karina, eu concordo demais com você! acho que vai, sim passar por uma reformulação (já tá passando, néam?), mas que não tem nem como morrer! quem tiver interesse e mostrar a verdade e compreender como a coisa toda funciona pode ficar tranquilo. vai dar tudo certo ♥

  3. Malu comentou:

    meu deus, maki, que texto lindo! saí com o coração quentinho – igual você falou, hehe.
    tô no terceiro ano do ensino médio, o que me confere o “status” de vestibulanda. faço curso técnico em multimídia junto com essa loucura que é estudar química, geografia, matemática e mais um monte de coisa, e no meio do curso técnico que tanto amo – e com as sábias intuições da minha mãe -, descobri e decidi que vou prestar para jornalismo.
    sabe, no começo, eu fiquei meio receosa. o meu coração falava que tava certo, mas todas aquelas questões sobre dinheiro/estabilidade/”o jornalismo está morto” entravam e saíam da minha cabeça. foi então que eu olhei pra dentro de mim e me perguntei “por que eu quero esse curso?”.
    e assim eu vi que carrego dentro de mim uma vontade inexplicável de contar histórias. de apresentar pontos de vista sobre um assunto. de levar pros outros um pouquinho do que eu acho interessante por aí, e que de alguma forma merece entrar na vida das pessoas. refletindo sobre o que você falou, o jornalismo é um ato de amor mesmo, porque em um mundo onde as pessoas estão tão individualistas, apontando o dedo pra todo mundo, tentar entender e escrever sobre o que está acontecendo entre as pessoas é um ato quase revolucionário. <3

    1. Maki respondeu Malu

      nossa, Malu, cê foi muito precisa. é isso mesmo, é um ato revolucionário a gente querer olhar pro outro, tentar entender e estender a mão antes de sair dando tapa, sabe? acho que é a melhor coisa que a gente pode fazer pelo mundo (e isso independe de profissão, né?).

  4. Que post lindo, Maki!
    To quase me formando em jornalismo e depois de praticamente cinco anos de graduação fiquei meio de saco cheio da área, não da comunicação. Mas isso antes de ler esse texto aqui. Vira e mexe gosto de ler, ver e ouvir coisas que me deem um gás seja sobre qualquer assunto da vida. Lendo suas palavras me lembrei lá de 2011 quando escolhi prestar vestibular pra jornalismo e em 2012 quando acabei passando. Em meio a tantas nuvens de negatividade que pairam o mercado jornalístico, nós precisamos sempre voltar lá pro pro ponto de partida e lembrar do nosso propósito ao adentrar nesse mundo lindo, louco e sofrido do jornalismo.
    Vou começar a escrever a monografia e ler esse seu post me deu uma inspiração a mais. O coração ficou quentinho real oficial.

    Obrigada <3

    1. Maki respondeu Thamires Vasconcelos

      é isso aí, Thamires. lembra do propósito, da importância que isso tem e segue em frente com coragem.
      boa sorte com a sua monografia! ♥

  5. que texto maravilhoso, Maki! <3 eu tô soltando fogos e dando pulinhos depois desse abraço todo! sério, eu precisava.
    como colega de profissão, eu ando um pouco perdida, no entanto, sei que meu lugar no jornalismo é produzindo conteúdo pra internet e penso, assim como você, em dar o meu melhor pra tentar ajudar, melhorar e fazer o dia de alguém mais feliz. talvez esteja um pouco enferrujadinha e afastada por todas essas minhocas que o cérebro cria – além das inseguranças de não estar fazendo um bom trabalho ou de não ter ninguém pra admirar meu trabalho – mas me inspiro muito em você, amo o teu trabalho e um dia, se deus quiser, além de te conhecer eu vou estar pela internet a fora distribuindo muito amor, positividade e fazendo do jornalismo a melhor escolha que eu já pude fazer algum dia.
    do fundo do coração te desejo muito sucesso, muita inspiração e que você continue despejando amor em forma de texto <3
    tô me sentindo abraçada e motivada a continuar meu caminho!

    obs: seu layout novo tá LINDO <3

    1. Maki respondeu RENATA FREITAS

      AI RENATA VAMO SE ABRAÇA!
      que amor esse comentário. é isso mesmo, sabe? a gente tem que acreditar que tá fazendo um trabalho importante (porque tá mesmo) e, principalmente, fazer com amor. só assim pra dar certo, né? ♥

deixe seu comentário