quando virou legal odiar as pessoas?

sobre odiar as pessoas

tava andando pelo Twitter ontem e me deparei com uma imagem do Homer Simpson (?) toda editada e com uma camiseta que dizia assim “eu odeio pessoas com foto de anime coreanos”. fiquei intrigada. não é a primeira vez que vejo alguém comentando que não gosta dessa ‘galera‘ que é fã de kpop e coloca as fotos do ídolo no perfil.

eu poderia ter passado em branco por isso, não fosse também uma conversa com a Duds no feriado sobre como as pessoas transformaram o ‘odiar a Taylor Swift‘ num esporte. dai eu passei por uma aula também que falou sobre o quanto a gente não se abre pra conhecer as coisas e solta um alto e sonoro ‘NÃO‘ pra tudo que a gente acha que não combina com a gente, sem nem conhecer. você já deve ter concluído que eu não dormi muito essa noite, né?

porque, sim, eu andei pensando sobre tudo isso e como a gente transformou o não gostar das coisas em moda. é cool dizer que odeia alguém e ir contra o movimento. é divertido gongar a pessoa X no Twitter. é ‘bacana’ dizer que não tem paciência pra quem gosta de música coreana e fica colocando foto de caras com cabelos coloridos e coroas de flores nas redes sociais.

eu, a Mel e a Lominha começamos um movimento de trazer mais amor pra internet (que não é inédito, diga-se de passagem, mas é muito importante), e eu não consegui não fazer uma relação com o que eu tenho visto. porque tem um detalhe importante nessa equação toda que pode passar despercebido e que as pessoas ignoram: “tudo o que eu sinto diante do que vejo é tudo o que sinto por mim mesmo“.

essa frase me acertou como um soco no estômago. um copo de água gelada jogado na cara. o barulho de um trovão numa noite 100% silenciosa. foi um susto que não deveria exatamente me assustar. porque é verdade.

tudo o que eu sinto diante do que vejo é tudo o que sinto por mim mesmo. se sinto raiva, essa raiva é de mim. se sinto tristeza, é de mim, é comigo. se tô feliz, é comigo também. e não digo um ‘comigo‘ no melhor estilo ‘eu sou o centro do universo e tudo gira ao meu redor‘ (apesar da mecânica da coisa ser assim mesmo), mas porque é muito ingênuo da nossa parte achar de verdade que as coisas que a gente vive tem um efeito no que a gente sente (spoiler: não tem).

é a gente, sabe? a gente sentindo coisas, a gente experienciando coisas, a gente entendendo como isso tudo funciona. e é a gente sentindo uma raiva por causa da pessoa X que usa a foto de um ídolo coreano no Twitter e a gente que fica irritada porque a Taylor Swift tá lançando uma música shade. é a gente sentindo raiva. e essa raiva não tem nada a ver com kpop ou a música da Taylor, e tudo a ver com o que gente sente pela gente mesma.

e nessa brincadeira a gente fica perpetuando raiva e distribuindo ódio por aí, ensinando pra tudo mundo que, na verdade, a gente se odeia e não sabe muito bem o que fazer com isso. fica presa nessa nhaca e vai sendo levada por esse buraco cada vez mais.

sobre odiar as pessoas

e isso cria uma intolerância, sabe? um ‘não quero – não gosto – sai daqui‘ que afasta a gente das pessoas. a gente não se permite conhecer, não se permite entender, e fica fechada numa caixinha que a gente mesma criou, sentindo coisas sobre a gente mesma, sem saber como sair.

num dá um aperto no coração só de pensar? o ar num faltou aí também?

ao mesmo tempo… num dá um comichão de começar a se perguntar ‘mas por quê?’. ‘odeio isso – mas por quê?‘. ‘não gosto daquilo – mas por quê?‘. ‘não quero isso – mas por quê?‘. parece esquisito a gente duvidar das nossas certezas, até descobrir que se privava de uma coisa super legal só porque colocou na cabeça que era chato. (eu já contei a história do mamão? eu passei a vida inteira dizendo que odiava mamão – hoje como com canela e é uma das partes mais gostosas do meu dia).

quando foi que odiar as coisas virou legal? quando foi que dizer que a gente odeia coisas virou legal? e ficar reforçando essa coisa de ‘ei, vamos nos juntar aqui porque a gente odeia as mesmas coisas e temos muito a dizer sobre isso‘. não, gente. a gente tá falando mal da gente assim. tá se maltratando. e tá ignorando que essa raivinha não é com os sete caras que dançam e cantam em coreano (amo), mas com a gente. a raiva é da gente. e o trabalho tem que ser um de reversão: de lembrar que a gente é gostável. que as pessoas ficam felizes em ter a gente na vida delas. e que a gente é livre pra se unir no que é gostosinho e não no que faz mal.

e nessa postura a gente assume que é assim e vai ensinando pras outras pessoas que elas são assim também. porque no fundo, é tudo a mesma coisa, né? eu e você, você e eu. a gente só brinca que é separado, de vez em quando.

sei lá, talvez eu precise dormir mais e parar de pensar tanto sobre coisas que vejo na internet.

ou talvez, só talvez, eu possa usar a própria internet pra lembrar todo mundo que a gente se ama e que não gostar de qualquer coisa é muito démodé.

10 comentários

  1. O ódio é só mais um jeito de ser egoísta, no fim das contas. Mas resistir ao ódio – e ao nosso lado ruim – também é uma maneira de ser resiliente. Obrigada pelo texto. <3

    1. Maki respondeu Carol Mancini

      brigada você por esse comentário fofíssimo, Carol!

  2. Amanda comentou:

    Muito bacana suas colocações, Maki. Concordo contigo, a gente põe pra fora o que temos repleto por dentro. Temos que escolher espalhar amor e não ódio. Muito reflexivo. Beijos

    1. Maki respondeu Amanda

      também acho, Amanda!

  3. Emy comentou:

    Fazendo questão de copiar essa frase e colocar bem no espelho do banheiro para ser a primeira coisa a ser lida no meu dia. É uma forma de lembrar que nossa missão nessa mundão é espalhar o amor <3

    Como sempre, amei seu texto <3

    Beijos!

    1. Maki respondeu Emy

      é missão mesmo ♥ e é tão gratificante, sabia?

  4. Karupin comentou:

    Hoe, Maki! Tudo bom? :)

    Ah, que bom que você pegou um momentinho para escrever suas reflexões sobre esse tipo de comportamento. Concordo totalmente com você e vou só um tiquinho mais além: como sentir raiva das coisas é um des-per-dí-cio. Desperdício de neurônio, desperdício de energia, desperdício de tempo e de vida.

    Não sei, mas, contrariando o que parece ser a lógica comum de não reter as coisas para si, ultimamente reclamar ou esbravejar me deixa muito mal – se fosse para ilustrar, parece que uma fumacinha, um pedacinho de alma, de vida se esvai pela boca da pessoa toda vez que esse tipo de coisa é verbalizado. E geralmente é por pouca coisa, nada se resolve fazendo isso e deixa um clima desagradável.

    Claro que todos têm o direito de gostar ou não, preferir ou não alguma coisa. Mas fica a pergunta: o que adianta? Para que disseminar tanto ódio? Por mais que se berre, esperneie e xingue, aquele estilo de música não deixará de existir; aquele artista não deixará de fazer sucesso (e faturar muito na cara da sociedade); aquelas pessoas não precisarão se sentir obrigadas a remover seus avatares com seus ídolos favoritos por conta disso.

    Talvez essa seja a pontinha do iceberg para o problema maior que você bem frisou: problemas com amor-próprio. Quando não se resolve os problemas da sua própria Morada, começa a apontar defeitos naquelas alheias, mesmo aquelas que nada têm a ver com a sua realidade, procurando até aliviar a sua barra com auto-enganações – “(eu tô ruim, mas) Fulano é pior porque -insira motivo bobo e até ilógico aqui-“.

    Longe de mim dizer que as pessoas têm de ser complacentes, aceitar tudo, dizer amém, passar pano… Refutar é importante, mas há outros tópicos para se canalizar essa energia com maior qualidade e que, de fato, são pertinentes a vida de todos. Mais amor sim e luta por causas maiores também, sim. ♥

    Beijos, flor~

    1. Maki respondeu Karupin

      nossa, num é? é isso mesmo, ficar engajando nesse ódio é um desperdício da vida. porque a gente muda o foco. agente para de prestar atenção na vida pra ficar focada nessa sensação ruim. e a vida não é isso. ♥

  5. Concordo muito e concordo com força. Eu já tinha atentado a toda essa onda apelativa sobre “odiar coisas” como se isso nos validasse dentro de uma tribo, e é bizarro ver como é uma verdadeira moda. É cool odiar ciclano ou beltrano, e isso é bem creepy.
    Coisas hypadas sofrem muito com isso também, como se dizer que detestamos algo que todo mundo ama nos fizesse mais especiais e interessantes.
    Claro que não gosto de tudo – desgosto de várias coisas que caíram nas graças do público geral; mas sair destilando esse discurainho medíocre são outros quinhentos.

    Enfim, encontrei seu blog essa semana e já acho lindo. <3

    1. Maki respondeu Carolina S.

      sim, Carol, é bem isso: odiar parece um mecanismo de aceitação? ‘se eu odiar isso com todo mundo, vou fazer parte’.e não tem nada a ver, né? a gente só fica alimentando essa coisa ruim dentro da gente.

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