Diário #66 – Eu amo escrever (e odeio também)

Tem horas que o arquivo em branco do Word é tão intimidador que eu sinto vontade queimar o teclado. Fechar o laptop e sair correndo por aí, pra bem longe de todas as ideias que eu quero colocar no papel.

Outras vezes, ele é tipo um bálsamo. O cursor que pisca e os meus dedos correndo pelo teclado tem um efeito relaxante, que acalma, como se eu tivesse tirando um peso das costas. E tem horas que escrever, pra mim, é bem isso mesmo: tirar um peso do peito, uma nuvem de cima do coração.

Diário #66 – Eu amo escrever (e odeio também)

Eu já usei muito o escrever pra me magoar. Tinha uma época em que me sentia orgulhosa em dizer que tudo o que eu sabia fazer na vida era escrever (eu também sempre tive um pé no melodrama). Mas a pressão que eu colocava em mim mesma para ‘escrever bem’ sempre me jogava pro outro lado, o dos textos medíocres e vazios (na minha – muito crítica – opinião, claro).

Eu não lembro de um tempo que não gostava de escrever. Quando a internet apareceu e meu pai comprou um computador lá pra casa, lembro que fiquei fascinada com a ideia de conseguir escrever mais rápido do que eu conseguia à mão e a minha paixão por fanfics (que eu também descobrir graças à essa maravilha tecnológica) me abriu um leque para treinar mil vezes mais o que eu já gostava de fazer naturalmente.

Eu sempre achei que me expressava melhor pelas palavras escritas e talvez continue achando isso. Nada bate uma boa carta aberta ou um post que é escrito com o coração. Talvez só a música. Mas, até aí, eu nunca achei que tivesse talento pra música.

Fui lembrada esses dias que as coisas que nós mais atacamos são sempre as mais preciosas pra gente. É muito claro ver isso no meu cabelo, que sempre foi uma fonte de sofrimento pra mim. A escrita parecia imune a isso, mas é claro que essa é daquelas mentiras deslavadas que ninguém acredita. A minha necessidade de escrever bem e a minha vontade de ir atrás do texto perfeito deixou milhares de rascunhos inacabados no desktop da minha vida, muitas ideias que pareciam promissoras a princípio, mas morriam sozinhas na praia por falta de incentivo e confiança.

Confiança. É tão difícil confiar. Em mim, nos outros, em Deus. Em coisas que eu não vejo, mas sinto, em coisas que faço, mas não me sinto capaz de terminar. Tudo por falta de confiança.

Já comecei incontáveis fanfics, contos, resenhas, até mesmo alguns livros, mas nunca nenhum era bom o suficiente para ganhar mais do que algumas páginas escritas às pressas e revisadas à exaustão, sempre batendo numa trava que eu mesma coloquei porque não confiava no meu próprio trabalho.

Eu amo escrever. Mas tem vezes que odeio também. Odeio porque parece que é a única coisa que eu sei fazer e por muito, muito, tempo eu coloquei toda a minha esperança nas palavras escritas e deixei de olhar para os lados e ver o que mais eu poderia fazer de bom no mundo. Eu coloquei um cabresto, uma venda, fechei os olhos pra um monte de outras coisas porque tinha certeza que nunca seria boa em nada a não ser escrever.

Mas que peso enorme esse que coloquei no tal arquivo do Word.

Uma vez me contaram uma história de um cara que tinha o foco da vida dele numa vaquinha: ele vendia o leite, o queijo, cuidava da vaquinha dia e noite, a vaquinha era a vida do cara. Até um dia que alguém decidiu jogar a vaquinha do precipício (coitada). Todo mundo achou que o cara ia morrer sem a vaquinha, mas ele comemorou. Porque finalmente conseguia ver outras coisas além dela e descobrir outros talentos que ele não sabia que tinha porque morria de medo de largar a vaquinha.

A escrita é a minha vaquinha. E eu tô empurrando ela cada vez mais em direção ao precipício. Uma hora ela vai ter que cair. E isso não quer dizer que eu vou parar de escrever (acho isso meio impossível, para ser sincera), mas talvez seja um sacrifício necessário pra eu parar de acreditar que só o que eu sei fazer é escrever.

O meu talento (?) não me define. E eu sou capaz de muita coisa. Eu sou capaz de tudo o que eu quiser. A questão é justamente essa: querer. Querer correr atrás, querer superar o medo, querer confiar. É o primeiro passo, com certeza. Mas jamais será o último.

BEDA2016

9 comentários

  1. Olá, Maki, tudo bem?

    Eu gostei muito deste texto porque eu amo escrever. Na verdade, eu demorei muito tempo para perceber que é algo que define bem uma parte do que sou. Sou simplesmente alucinada por criar histórias, mundos, personagens detalhadamente. Enfim, sou escritora!

    Desde a adolescência, eu escrevo. No começo, muita coisa ruim. Nossa, eu era péssima! kkkk Mas depois da faculdade, como era obrigatório o conhecimento do português formal (gramática, ortografia, produção de texto e etc.), passei a ter mais noção do que eu criava. E também me acalmei sobre este mundo da escrita. Existe muita cobrança e ficamos comparando o que fazemos com o que os outros fazem. É uma pressão desnecessária, que eu mesma gerava contra mim, por exemplo.

    Hoje, eu não ligo mais para isto. Estou no meu quarto livro, escrevi um monte de artigos científicos e crônicas e estou de boa com esta vida. Se vou fazer sucesso, isso para mim não é mais importante. O retorno está vindo na paz que consigo quando, afinal, coloco ‘FIM’ numa história.
    Estou falando isto tudo para demonstrar que os dois caminhos (o se abrir para novas descobertas e o ficar, também, com o que já se descobriu) são válidos. Eu também sou historiadora e artesã, e devo ser um monte de outras coisas que, como você disse, vão aparecendo pelo caminho.

    São as camadas de quem somos, como uma cebola bem grandona. Cada uma nos identifica e nos faz únicas/os.

    Gostei demais do seu texto! Eu já disse isto, eu sei! kkkk

    Bjo pr’ocê!

    1. Maki respondeu C.Vieira

      ahaha você é tão fofinha! mas eu entendo total. no começo também não sabia escrever lé com cré, mas com a prática a gente vai melhorando, descobrindo a nossa própria voz na escrita e é isso que faz desse mundinho tão incrível, né? ♥

  2. Nossa que texto incrível maki (de verdade). Como tudo que você escreve, aprece estar conversando intimamente com o nosso eu, e abalando todas as estruturas do nosso ser. Eu também amo e odeio escrever. Eu amo porque é a forma que sei melhor me expressar, sou péssima em demonstrar afetos, ou falar deles, sem parecer racional demais, fria demais. O texto, escrever me deixa mais calorosa. E olha, eu sou dessas pessoas carinhosas, mas sou uma mistura muito louca dessas pessoas. Às vezes é estranho até entender, que eu tenho que respeitar quem eu sou. Demorei. As vezes, odeio escrever porque fico nesse jogo de que parece que só sei expressar meus sentimentos através dele. Mal sabem que eu reviso de tempos em tempos. Na vida real,assim pessoalmente, minhas palavras sentimentais saem meio tímidas. Não que eu seja uma pessoa timida, longe disso! Sou extrovertida até demais, mas pense no sacrificio que eu tenho para falar a primeira vez para alguem o quão importante ela é pra mim. E não digo só em questão de namoro não.
    Enfim, já ficou grande demais.
    Você é infinitas makis escondida dentro de você mesma. Incrível. Uma mulher que eu admiro e que me parece ser tão inteligente quanto graciosa.
    É isso. beijos!

    1. Maki respondeu Clara Rocha

      afe, você é maravilhosa!
      eu entendo bem o que você falou. no papel parece tudo muito mais fácil e na vida real parece que as coisas saem meio desajeitadas, né? tipo, parece que nunca tá ‘certo’, e isso é um saco. mas é um treino, né? a gente tem que parar de ver nisso mais uma trava pra se relacionar e pra acreditar no próprio potencial!
      seus comentários sempre alegram o meu dia! ♥

  3. Ju comentou:

    Guria, e quando dizem que tu escreve bem e ao mesmo tempo chega alguem e te critica porque tu não escreve bem? Ai vem toda aquela autocrítica e os elogios que tu recebeste antes vão por água abaixo. Escrever é ao mesmo tempo a atividade que tenho maior facilidade e maior dificuldade em praticar.

    1. Maki respondeu Ju

      argh, sim! pior coisa. você fica se sentindo bem e depois vem um outro comentário que parece que desmerece tudo né? mas é questão da gente não dar ouvidos ao que os outros fazem e sim ao que a gente sente quando escreve, sabe?

  4. Priih comentou:

    Oi, Maki!
    Menina, essa neura e essa crítica persistente também me acompanham. Eu tenho três paixões na vida: escrever, desenhar e cantar. A única que me sinto segura, hoje, é a escrita. Felizmente cheguei em um tamar confortável com ela e ela é uma das coisas que me dá orgulho hoje.
    Porém, aquela autocrítica que você menciona no texto me perseguiu por anos no desenho. Eu sempre ~levei jeito~ pra coisa, mas eu perdia horas no DeviantArt acompanhando artistas a anos-luz de mim e me diminuindo. Hoje nem desenho mais. Triste, mas ao mesmo tempo libertador. (?) Louco, né? Hahaha!
    Enfim, é bom quando a gente alcança um nível em que as coisas que amamos não nos machucam mais. É quando a gente faz as pazes, acho. =)
    Adorei o post de novo!
    Beijos,

    Priscilla
    Infinitas Vidas

    1. Priih respondeu Priih

      Tamar não HAHAHA!
      Patamar! =P

    2. Maki respondeu Priih

      oi, Priih! pois é, eu já quis desenhar, já quis cantar, já quis fazer mil coisas, mas nunca fiz porque não me achava capaz. e isso é muito doido! é colocar todas as fichas numa coisa só mesmo e não olhar pros lados, não parar pra respirar. é horrível! o trampo é, justamente, desprender disso que nos machuca pra gente conseguir fazer tudo o que quer sem se machucar, né?

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