diário #95 – tem uma pilha de coisas na escrivaninha

pilha de coisas

tem uma pilha de coisas na escrivaninha. todo dia de manhã, eu passo a pilha inteira pra cima da cama, quando começo a trabalhar. no fim do dia, o movimento é inverso. eu libero a cama e coloco as (duas) pilhas de volta na escrivaninha.

é quase uma coreografia. tira o chinelo pra pisar no tapete, arruma a cama, abre a janela, passa a pilha de lá pra cá, pega a xícara de chá na cozinha, senta na mesa, respira fundo. digita digita digita.

outro dia, percebi que eu não tenho ideia mais do que tem nessas pilhas de coisas. tem uma revista que eu ainda não li. tem alguns papéis que eu não sei muito bem o que dizem. algumas ilustrações que eu prometi a mim mesma que ia pendurar na parede no começo do ano (e até agora nada). algumas correspondências do banco que eu nunca abri (e nem pretendo). cartões de visitas, talvez. um ou outro boleto pago pela internet. um ou outro comprovante de compra. uma ou outra nota fiscal que eu tirei da bolsa e coloquei ali, despretensiosamente, pra jogar fora depois.

a pilha aumentou com alguns livros que eu comprei e coloquei na fila mental para ler. o meu kindle, que vai e volta com essa corrente, mas eventualmente encontra um espaço também na minha mesinha de cabeceira, quando eu decido que é hora de ler alguma coisa de verdade.

essa pilha de coisas me incomoda. mas, mesmo nos meus dias livres, eu deixo ela ali, intocada. penso no que vai acontecer quando eu receber visitas em casa e tiver que soltar um ‘desculpa a bagunça‘, porque aquele monte de coisas desconhecidas continua ali, me perseguindo dia sim, dia também. porém, até com essa perspectiva a pilha continua ali. eu não arrumo.

a pilha de coisas, por mais real que seja, também pode ser vista como uma metáfora. pro quanto a gente se acostuma com coisas que não fazem bem, sabe? aquela pilha não me faz bem. ela me incomoda. eu fico frustrada quando olho pra ela. tem horas que eu não sei porque ainda não joguei tudo aquilo direto no lixo. outras eu me pergunto ‘meu Deus, mas qual a dificuldade de arrumar essa bagunça?’. mas ela segue ali. me espiando. me julgando com os olhos cerrados e os papeis comidos pelo tempo. juntando pó e rancor. é o tal do estresse mental que a gente acha que é besteira até perceber como dá um alívio no coração arrumar o armário e deixar tudo bonitinho, no devido lugar.

ainda não me propus a encontrar essa paz no coração com a minha pilha de coisas em cima da escrivaninha.

a gente se acostuma com o desconforto e solta um ‘ah, não é tão ruim assim‘ pra uma situação que é, de fato, ruim. porque a gente acha que merece, sabe? tudo bem eu ter o esforço de mover um monte de coisas de um lado pro outro t o d o s  o s  d i a s. tudo bem eu ficar com a sensação de que os meus dias tão uma corrida maluca e eu não tenho tempo nem de ir na farmácia comprar desodorante e soltar um ‘ah, não!‘ na hora de me vestir (pode ou não ter acontecido essa semana). tudo bem eu não colocar as prateleiras no quarto e não ter onde guardar meus livros direito. no fundo, eu acho que mereço esses pequenos incômodos do dia a dia.

imagina, que loucura, passar o dia inteiro confortável e tranquila, sem estresse e com o desodorante novinho em cima da penteadeira, pronto pra ser usado a qualquer momento. longe de mim querer esse nível de conforto (*insira o seu melhor virar de olhos aqui*).

é, a gente tá acostumada com o desconforto. com o que é ‘chato’. com os pequenos incômodos. com o acúmulo de coisas que a gente não precisa mais e que ficam acumulando desgosto num canto escuro do quarto. mas, ainda assim, a gente não se propõe a mudar.

até que um dia a gente solta um sonoro CHEGA! e muda tudo de lugar. arruma tudo. junta um saco de lixo cheio de papel pra colocar pra reciclar. tira as roupas velhas do armário. pendura as ilustrações na parede. coloca os pisca-piscas na cabeceira da cama. joga fora todas as maquiagens vencidas.

mas até lá… fica na dança do vai e volta com a pilha de papéis. da escrivaninha pra cama. da cama pra escrivaninha. e vai. e volta. e vai. e volta. até cansar. até que o ‘chega!’ vem lá do fundo do nosso coração. e a gente acha que não vale mais viver nessa bagunça e com esses desconfortos todos.

tem hora que a mudança é pra valer. e a gente se compromete a deixar tudo no devido lugar. a fazer do quarto um lugar de descanso, todo bonitinho, todo arrumadinho. todo inho. tem vezes que a gente cai nos mesmos hábitos e três meses depois a pilha tá lá, assombrando a gente de novo.

até que a gente aceite que merece uma vida confortável, que merece ficar sem esses incômodos mentais. que merece não se preocupar com a pilha de coisas na escrivaninha e as cartas do banco que você nunca vai abrir. e, quando percebe, a pilha nem existe mais, porque o que sumiu da sua vida não os papeis que se acumulam, mas essa pulguinha no fundo da sua mente que fica te dando uma coceirinha que você não sabe como se livrar.

ô, pulguinha. sai daí, eu tenho coisas mais importantes pra fazer do que ficar preocupada (e pré-ocupada) com uma pilha de papeis que eu nem sei mais pra quê servem.

aquele domingo em que entendi que sou gostável

 

domingo evento de tutoria

tem momentos que parece que a gente tá vivendo dentro de um filme. as cenas se movem em câmera lenta, a gente parece viver num universo paralelo, suspenso no tempo-espaço, um mundinho só nosso e que é inquebrantável. invulnerável. feliz.

domingo passado foi como um filme, mas repleto de realidade. eu acordei voluntariamente às 9h15 pra tomar um banho gostoso. colocar uma roupa escolhida com carinho (e que era 50% emprestada, 50% minha). fazer uma maquiagem confortável e tomar uma xícara de café. tava meio frio. tava chovendo também. mas esse foi só um detalhe no dia em que eu lembrei que sou gostável.

domingo evento de tutoria

domingo evento de tutoria

domingo aconteceu o 12º Evento de Tutoria e Integração de Turmas da Coexiste. é um evento para alunos e professores, em que a gente passa o dia inteiro junto relembrando o nosso compromisso uns com os outros e com o mundo. é um dia em que a gente fica mais de 12 horas aproveitando a companhia das pessoas, sorrindo sem motivo, abraçando só porque pode, cantando alto, pulando, dançando, comendo, mas, principalmente, amando.

domingo evento de tutoria
Lu e Eri (os roomies!), Luminha e eu ♥

domingo evento de tutoria

nesse evento, alunos como eu recebem um tutor e um professor que vão acompanhar o nosso processo e evolução nos cursos da Coe pelos próximos meses. são duas pessoas que vão cuidar da gente, ajudar nos momentos de dificuldade, clarear a mente quando ela ficar confusa e, principalmente, ser uma lembrança pra gente de que a vida é leve, é feliz e de que o relacionamento verdadeiro é possível.

domingo evento de tutoria
Clau e Carol ♥
domingo evento de tutoria
Kaw Yin e Yan Yin com os envelopes de tutores e professores

sabe, o evento desse ano rolou num lugar super legal ali perto da Marginal Tietê. tinha um bosque. e flores bonitas. tinha chá e pão de queijo. tinha pudim de leite de sobremesa. tocou Anitta e Black Eyed Peas. a gente cantou as músicas do Kaw Yin também. a gente chorou muito percebendo o carinho em cada detalhe.

a gente tirou muitas fotos. fez muitos Stories. teve gente que fez live. a gente tirou uma selfie com t o d o  m u n d o que eu tenho certeza que é uma das mais alegres que o mundo já viu. a gente ficou conversando sobre a vida deitado no sofá. a gente trocou declarações de amor verdadeiras. agora eu tenho a Clau e a Carol pra me levarem pela mão quando eu me sentir meio perdida. tenho também um copo lindão de lembrança desse dia incrível.

domingo evento de tutoria

domingo evento de tutoria

domingo evento de tutoria

mas o principal é que eu entendi, sabe? entre uma dinâmica e outra. entre uma florzinha e outra, uma selfie e outra. eu entendi que tenho as costas quentes, que tenho uma galera comigo nessa jornada. e que a gente tá indo todo mundo pro mesmo lugar. eu entendi que as pessoas gostam de mim. e que eu gosto delas, sabe? eu gosto mesmo.

domingo evento de tutoria

domingo evento de tutoria

domingo evento de tutoria

a gente fez uma foto da nossa turma. começou AVP 14 – curso A Verdade Presencial, turma 14. agora é Pós 8. e eu amo essas pessoas. amo muito. eu confio nelas. a gente se cuida, se apoia um no outro. se leva junto pelo mesmo caminho. se um tropeça, a gente se dá as mãos pra ajudar a levantar. ou carrega no colo mesmo, o que for mais fácil. mas a gente vai junto. e vai longe. e vai com o coração cheio de amor e a lembrança de um domingo em que cada um de nós entendeu que, acima de tudo, é gostável e gosta. de si mesmo. do outro. da florzinha. do abraço. do pudim. do copo lindão. de todos.

domingo evento de tutoria

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detalhe: a história da caneca mais usada de todos os tempos

caneca alemã

tem uma caneca que eu uso todos os dias, sem falta. curiosamente, pensando sobre ela, acabei de perceber que tem dez anos que faz parte da minha rotina diária, mesmo que só por alguns minutos corridos pela manhã.

a minha relação com essa caneca toda desenhada começou em 2007, na primeira viagem internacional que eu fiz sozinha na vida. eu tinha 20 anos na época e fiz um mochilão para a Europa junto com uma das minhas melhores amigas. foi um mês de viagem e seis países visitados – a Alemanha sendo um deles.

caneca alemã

caneca alemã

confesso também que foi um dos lugares que eu mais gostei de visitar. sempre tive um apreço por história e ver lugares tão marcantes da história mundial de pertinho me deixou meio sem fôlego (tenho uma foto encostando no Portão de Brandenburgo – é sério). foi nessa viagem também que eu criei o hábito de comprar uma caneca diferente para cada lugar que eu visitava e dentre tantas que eu trouxe de volta na mochila (foi um milagre terem chegado inteiras aqui), essa acabou sendo a mais usada, em todo esse tempo.

ela virou queridinha por dois motivos: o primeiro é que eu amo o desenho dessa ovelhinha! acho tão fofa, tão aconchegante. o segundo é o tamanho – ela é bem maior do que uma caneca comum e cabe muito mais chá ali dentro ♥. virou a caneca de todos os dias justamente porque eu tomo um balde de chá de manhã cedo.

caneca alemã

normalmente, quando tomo café da manhã, eu não sou do tipo que fica na mesa com a caneca, olhando o vazio e esperando o corpo acordar de vez (só de vez em quando). eu levo a xícara comigo pro computador, depois de comer, e ela é a minha companhia pras primeiras tarefas do dia. tem vezes que eu me permito sentar na cama mais uns minutos e aproveitar o meu chá de limão com gengibre (amo demais), outros dias eu queimo a língua, porque o chá tá quente demais eu tô muito concentrada no trabalho pra prestar atenção. tem vezes também que eu faço esse mesmo balde de chá a tarde só pra esquentar a mão, se o dia tá frio (ou pra me incentivar a levantar da cadeira por uns minutos, todos os outros dias).

acho que se eu me desfizesse de tudo o que tenho em casa, deixaria só essa caneca pra poder continuar o meu ritual diário de tomar muito mais chá do que o necessário. pra mim, essa caneca virou sinônimo de um carinho diário, uma lembrança que tudo bem eu dar um passo atrás de vez em quando, respirar fundo, e lembrar que tá tudo bem.

caneca alemã

caneca alemã

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diário #93 – eu mereço

eu mereço maki de mingo

Foto: Luísa Chequer Fotografia

a gente tem uma mania maluca de achar que felicidade demais é um problema. não pode sorrir demais porque é estranho, não pode estar sempre bem porque ‘a vida não é assim‘, não pode ficar de boas quando o mundo tá caindo porque a gente tem que se desesperar todo mundo junto ao invés de focar numa solução.

eu tava pensando esses dias sobre como é fácil a gente sentir medo quando as coisas estão bem, porque parece que a felicidade é curta demais e tem hora pra acabar. a gente precisa passar por esse ciclo de altos e baixos, caso contrário não é a vida – ela fica sem graça, sem sentido, precisa ter um pouco de emoção.

eu me peguei com medo. medo que tudo não passasse de um sonho, que eu acordaria um dia no mesmo ponto em que estava dois anos atrás: triste, sem esperança, me sentindo presa no alto de uma torre sem chance de saída. e tudo isso que eu estaria vivendo seria apenas uma criação do meu imaginário, uma alucinação boa, um sonho feliz.

o meu primeiro impulso é correr pra proteger tudo. segurar nas bordas do barquinho salva-vidas pra ele não virar  – e, se virar, que pelo menos me leve junto. é o medo da perda, da solidão, de comprovar que estamos mesmo todos fadados a viver um ciclo monótono de nascer e morrer permeado por alguns momentos de alegria e outros de tristeza.

eu quis chorar também. chorar porque jamais imaginei que poderia ser tão feliz como estou sendo agora. chorar de pavor, com receio de que tudo possa desmoronar de uma hora para a outra, sem justificativa, e eu me vendo de mãos vazias, no meio de uma avenida mais vazia ainda, os joelhos no asfalto, tomando chuva e perguntando ‘o que foi que eu fiz de errado‘.

felizmente, a vida não é um drama hollywoodiano, muito menos uma sucessão de momentos alegres e tristes, porque a alegria de verdade não tem opostos. pelo contrário ela é, hoje e sempre, alegre. felizmente, também, eu sei que tenho um backup dos mais completos, um suporte inteiro me lembrando diariamente de duas palavras que eu vivo esquecendo de novo e de novo: eu mereço.

eu mereço ser feliz. eu mereço viver dias felizes. eu mereço coisas bonitas, e momentos de completa abundância e comidinhas gostosas. mereço também dormir de conchinha, receber abraços carinhosos logo cedo, tomar uma xícara de chá num quartinho espaçoso numa noite chuvosa. mereço roupas confortáveis e passeios de um dia inteiro andando pelos meus lugares preferidos de São Paulo.

mereço viver a verdade sobre a vida e sentir o amor todo os dias. em cada toque, em cada palavra, em cada gesto e cada palavra escrita. mereço também cumprir a minha função no mundo, porque só ela vai me levar pra esse lugar plenamente alegre.

eu mereço. mereço entender que tá tudo bem comigo e com todos e que a gente tá junta nessa caminhada de volta pra casa. enquanto a gente não chega lá, a gente treina essa lembrança, de que merece. por mais absurdo que pareça a gente fazer um treino pra lembrar o tempo inteiro que merece ser feliz.

ainda entre altos e baixos, eu aceito. eu me lembro. eu me sinto feliz e completa. amada. eu choro sem motivos (mas sempre de alegria) e eu passo momentos repletos de amor. e cada um desses momentos, vem o reforço carinhoso, as palavras felizes que ficam repetindo nessa minha cabecinha cheia de caraminholas:

eu mereço.

diário #92 – obrigada por ficar

eu fui salva

me peguei observando a felicidade de soslaio e me perguntei mentalmente como é que eu vim parar no meio dessa bagunça alegre. seria mentira dizer que eu não sei o caminho que fiz até aqui, e uma falácia ainda maior ousar falar que eu não gosto disso.

qualquer olhada ao redor me faz chorar copiosamente. logo eu, a Maria Chorona da infância. vamos dizer que não era difícil me fazer cair aos prantos. não que precise muito para isso acontecer hoje também. mas é um choro diferente. se antes era sofrido, dolorido, triste, hoje só choro se for de alegria.

eu tinha uma certeza muito grande no meu coração de que a vida não valia a pena ser vivida. de que desistir de tudo era a solução para os meus problemas e de que morrer era a única saída pro que eu sentia. eu via o mundo tal qual uma fotografia antiga: em tons de preto e branco ou com um filtro sépia que de hipster não tinha nada. a vida não tinha cor. não tinha carinho. não tinha vida.

lembro de um dia olhar pela janela do carro, enquanto minha mãe me levava pra faculdade, e dizer pra mim mesma ‘eu tô só existindo‘. o próprio meme ambulante. mas a pergunta não tinha nada de engraçada. não tinha nada de irônica ou de retórica. tinha uma carga de tristeza que nem eu conseguia carregar mais. tinha uma dúvida de uma vida inteira, dentro de tão poucas palavras.

olhando para as últimas semanas que tive, me peguei sorrindo à toa, querendo ficar junto das pessoa que eu amo, buscando desculpas para ficar perto daqueles que já estão perto (não que desculpas sejam necessárias pra isso, que fique bem claro). e não preciso ir muito longe para perceber que a Maki de alguns anos, que se perguntava o que estava fazendo com a própria vida, sumiu. ela, de fato, morreu. aqui jaz a Maki do Passado™, que um dia acreditou que a morte era a solução e que a vida não tinha sentido.

eu renasci. eu revivi. eu encontrei o amor. e encontrando o amor percebi que precisaria me despir daquela pessoa que eu achava que era pra viver a vida que é minha por direito. a que é feliz, a que é alegre e que é plena, abundante e completa. a que não reconhece a falta, a que não vê o ódio, a que a ama a todos igualmente.

sim, aquela Maki morreu. mas isso não é triste e de perda não tem nada. pelo contrário, eu celebro o seu fim cada dia mais. porque o momento que ela decidiu partir foi o mesmo em que eu decidi ficar. eu me dei uma segunda chance. eu optei pela porta número dois, eu me deixei guiar pelos mágicos que diziam palavras bonitas sobre o amor e que pareciam não sofrer com dias tristes. mal sabia eu que de mágicos eles não tinham nada.

de corpo vivido, sou mais velha do que antes, porém mil anos mais nova. visto o que me deixa com um quentinho no coração. como comidas gostosas. recebo abraços carinhosos. ganhei parceiros de jornada e tenho por todos os lados anjos que me guiam pelo caminho certeiro em direção a meta final: voltar pra casa e enfim descansar o meu coração onde ele surgiu. onde só existe luz e calor e carinho e paz, virando a direita na rua da gratidão, duas quadras depois do perdão.

nossa, a gente é muito feliz, né?‘ hoje digo essas palavras com um coração que ocupa o mundo inteiro e mais um pouco. olho nos olhos e me sinto contente, recebo um beijo e me vejo plena. vejo as pessoas dançando numa pista de dança improvisada e montada com todo o carinho do mundo e tenho vontade de cantar as mais belas músicas já escritas, recitar todos os sonetos de Shakespeare e encarnar a Julieta no seu balcão: ‘aquilo a que chamamos de rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo e doce perfume…’

hoje eu existo. eu vivo. eu amo. eu aprendi a ver, e aprendendo a ver reaprendi sobre quem eu sou. eu me lembrei. eu sinto. eu sei. tão claro quanto as vozes que ouço na cozinha, os meus colegas de quarto conversando sobre um filme que assistiram mais cedo. tão alto quanto os latidos do cachorro na esquina. eu sei. o que eu sou não muda. o que eu sou ama. o que eu sou é feliz. portanto, eu sou feliz.

e com esse coração leve, eu só sinto gratidão pela Maki de antigamente, a que desapareceu. porque ela decidiu ficar. e escolheu sair de cena pra eu voltar a ser eu mesma, pra eu poder amar de novo. pra eu olhar pra um dia como esse e ter a plena e feliz certeza da veracidade dessas três palavras que rondam a minha mente diariamente, e que exprimem, tão simplesmente, tudo o que me aconteceu:

eu. fui. salva.