Diário #48 – Eu pensava sempre em morrer

Eu já pensei muito na morte. Mais especificamente, já pensei muito em morrer. Nos dias ruins, a vontade vinha bem forte e sonora: se eu me jogar na frente desse ônibus agora, talvez dê certo. Se eu pular por essa janela, acho que consigo. Se eu tomar esse vidro todo de remédio, talvez eu morra mesmo.

Pensar na morte, pra mim, era normal. Era como pensar no leite que eu tomava todas as manhãs: inevitável e já parte da rotina. Café da manhã. Morte. Trabalho. Quero morrer. Ônibus pra casa. Hora de morrer. Em casa vendo série. Morte. Na cama antes de dormir. Tomara que eu não acorde mais.

Eu pensava muito em morrerFoto: Cassio Crow Fotografia

No meu consciente, eu queria muito não acordar de novo. Essa vida, ela não tem sentido, sabe? Essa coisa de levantar de manhã pra ir pra um trabalho ganhar ‘o sustento‘. Ter que se preocupar com política e com o futebol. Ter que chorar quando eu não encontro alguém pra ser a minha metade da laranja. Acordar no dia seguinte e começar de novo.

Me preocupar com IPTU, IPVA, comprar um carro, uma casa ou uma bicicleta. Ter que lidar com a violência na televisão, na rua e dentro de casa, nos pequenos atos que vão matando a gente aos poucos (ou nos grandes, que nos matam de vez). Ter que tirar a esperança de uma chama interna que já tinha se apagado há tanto tempo que os fósforos que ficavam na caixinha do lado apodreceram ou ficaram molhados por conta da chuva.

Sorrir não era possível e a pergunta que eu mais me fazia era: ‘Qual o sentido de tudo isso?‘. Eu pensava em morrer o tempo todo porque a vida não tinha sentido. Eu não encontrava uma razão para continuar. Tudo o que eu queria era desaparecer da existência.

Isso é possível? Simplesmente deixar de existir? Pra sempre? Será que eu sou mesmo capaz de acreditar que a minha vida se resume aos 80 anos – em média – que um ser humano vive na Terra? É isso mesmo?

Não à toa eu achava que a vida não tinha sentido nenhum.

A verdade é que eu cheguei num ponto em que queria mesmo morrer. E depois me culpei porque vi que não seria capaz de acabar com a minha própria vida, e então percebi que talvez eu não quisesse morrer tanto assim.

A verdade mesmo é que morrer não ia mudar nada.

Morrer não ia resolver os meus problemas (ou os dos outros, diga-se de passagem). Morrer não ia me trazer paz. Não ia me tornar mártir. Talvez me transformasse numa estatística. E pra quem quer ser especial, virar só mais um número não funciona muito bem.

Eu dormia mal, acordava mal, comia mal, porque achava que eu merecia isso e também porque eu não via uma saída. Pra mim o mundo era isso e a vida era essa merda toda mesmo. Nada tem muito sentido a gente tem que se virar com o que tem.

Mas eu decidi sair dessa. Eu percebi, mesmo que no tal do meu inconsciente, que eu não queria mais morrer, porque acabar com o corpo não ia resolver coisa alguma. Então saí em busca de uma razão pra continuar viva.

E eu encontrei. Sim, realmente, a vida no mundo não tem sentido algum e viver por aqui é uma coisa meio louca mesmo. Mas a Vida, a Vida de verdade, o que ela é, é mais do que motivo pra continuar existindo (e, na verdade, a gente jamais consegue deixar de existir). A vida é alegre, a vida é leve, a vida é abundante. A vida é.

Dá, sim, pra ser feliz o tempo todo, porque a Vida não tem opostos. Pode, sim, ser feliz o tempo todo porque quem está em contato com A VIDA não tem porque se abalar com as pequenezas do mundo.

O mundo é isso: pequeno. E a vida no mundo é menor ainda. Mas eu? Eu sou a somatória de todo o universo e muito mais. Eu sou tudo o que existe e, nesse lugar, eu sei que morrer não ajuda nada nem ninguém.

Eu achei a minha razão pra viver: lembrar de quem eu sou de verdade. Pra que você possa olhar pra mim e lembrar também. E a gente consiga, juntas, voltar pro lugar da onde a gente nunca saiu.

A gente se distrai muito, sabe? A gente pensa que é um monte de coisas. Humana. Mulher. Alta. Baixa. Magra. Gorda. Simpática. Antipática. Jornalista. Advogada. Pediatra. Nutricionista. Mãe. Avó. Solteira. Casada. Viúva. E dá pra resumir isso tudo numa palavra só: limitada.

A gente se limita por uma coisa tão pequena quanto o mundo. Tão sem sentido quanto uma bola gigante que gira em torno de uma bola maior ainda e que pega fogo o tempo todo. A gente pensa que nessa bola tá a chave pra nossa felicidade e quando a gente não acha… Bem, sempre tem a morte pra dar um fim nessa busca infrutífera.

Os meus dias eram regrados pelo pensamento da morte. E pela sensação da morte. Eu não precisava deixar o corpo pra provar que já estava morta há muito tempo. Eu achava que morrer era a solução dos meus problemas, mas na real, quem olhasse pra mim sabia que eu já tinha desistido de viver muito antes.

Tenho certeza que você já pensou assim também.

Mas tá tudo bem. Comigo e com você. E eu garanto que você não precisa morrer pra resolver coisa alguma. Não faz isso, não. Não se machuca. A gente já se fere tanto sem nem encostar no corpo… Tem saída, viu? Tem mesmo. Tá tudo bem com você.

A vida é muito bonita, e não é nada disso que você pensa. Para de achar que você tá sozinha, não tá não! Eu tô com você. E hoje sei também que você está comigo também. Sempre e em todos os lugares, porque não há distância pro amor que existe em nós.

Eu pensava o tempo em todo em morte. Hoje eu penso o tempo todo em como ser mais viva. Em como levar a vida pra tudo o que eu faço. Em como fazer você entender que eu te amo e que sei que sou amada também. Quais palavras vão fazer você entender a minha mensagem?

A morte não resolve nada.
Mas entrar em contato com a Vida (de verdade!) resolve tudo.

E, ó, se você ainda pensa muito assim… Não tem problema pedir ajuda. Isso não torna você uma pessoa fraca, pelo contrário. Você pode procurar o Centro de Valorização da Vida, um amigo disposto a ouvir, alguém da família, um desconhecido na rua, mandar um email pra mim… Só não acredite que você está sozinha. Combinado?

Vamos falar sobre suicídio?

Eu sei, o tema é pesado. E confesso que até três meses atrás, eu não estava totalmente pronta para falar sobre ele assim, tão publicamente. Mas sabe o que me fez mudar de ideia? Uma conversa maravilhosa sobre a vida com uma pessoa inesperada (e incrível,diga-se de passagem).

Não sei dizer quando foi a primeira vez que eu pensei em acabar com a minha própria vida. Tem muito tempo, eu acho, mas no último ano, com certeza, foi que essa vontade apareceu muito mais forte do que em qualquer outro momento. Todos os dias eram uma verdadeira tortura para mim, acordar, levantar da cama, tomar café da manhã, ir trabalhar… Nada disso fazia o menor sentido, e, na minha cabeça, era fácil entender que a minha vida era assim tão ruim, porque eu não a merecia. Na minha cabeça, eu não merecia viver. 

suicídio

Até mesmo pensei em como eu faria isso. Minha primeira tentativa (que na época eu não sabia que seria apenas isso, uma tentativa), seria pular de algum lugar. E eu cheguei a ir até a Praça do Ciclista, na Av. Paulista, e olhei para os carros que passavam ali em baixo, no túnel, pensando que seria rápido, pelo menos, porque se a pancada no chão não fizesse o serviço completo, com certeza a velocidade dos carros seria o suficiente para que eu deixasse esse mundo vez.

Lembro até que cheguei a me debruçar sobre a grade, para ver se o vento que batia no rosto e a sensação de medo de cair me davam a coragem que eu precisava para pular. Claro que eu não finalizei o plano, já que um policial que estava do outro lado da rua me viu e pediu que eu, calmamente, me afastasse da grade. ‘Não vai resolver nada, moça‘, ele me disse.

Voltei para casa, aquele dia, com uma sensação de fracasso enorme. Eu era tão incapaz que nem mesmo conseguia me matar. Eu estava no meu pior momento e enquanto eu chorava deitada na cama, pensando em voltar no dia seguinte e terminar de vez o trabalho, eu tive um estalo. Eu precisava de ajuda.

Foi quando eu corri atrás de uma terapeuta e comecei o tratamento. Não vou mentir e dizer que pensamentos como esse não passaram pela minha cabeça desde então. Passei por outras situações muito ruins, alguns blackouts, outras tentativas falhas que, agora eu vejo, foram falhas por uma escolha minha. No fundo, eu não queria morrer. 

Claro que eu sou um caso à parte. Muitas pessoas não tem esse estalo. Muitas, infelizmente, são bem sucedidas nesse projeto. Mas, o que eu quero dizer com tudo isso é que o assunto não pode se tornar um tabu.

Para mim, entender que aquilo aconteceu foi a melhor coisa. Perceber o que eu estava sentindo, identificar o porquê de eu pensar diariamente sobre a minha própria morte, me fez entender muita coisa, aprender muito sobre mim. Conversar com alguém que me escutasse e não me julgasse, no fim, era tudo o que eu precisava para sair do fundo do poço.

Nós tratamos o suicídio como se fosse um tabu, uma coisa proibida em rodas de conversação, mesmo as mais íntimas. O suicídio é visto como pecado, como algo errado, mas ao mesmo tempo, as pessoas não dão atenção suficiente para reverter esse quadro.

Um relatório da OMS liberado em setembro do ano passado apontou que o Brasil é o 8º país do mundo com maior número de suicídios, e que 804 mil pessoas tiram a própria vida todos os anos. O relatório ainda diz que, a cada 40 segundos – isso mesmo, 40 SEGUNDOS – uma pessoa comete suicídio, mas só 28 países do mundo, dentro dos 193 oficiais reconhecidos pela ONU, têm algum planejamento de prevenção.

Com números como esse, é impossível, a meu ver, não falar sobre isso. Outros números alarmantes dizem que, no Brasil, em média 25 pessoas tiram a própria vida por dia  – aproximadamente uma pessoa por hora – e que a taxa de suicídio cresceu 30% entre os jovens de 15 a 29 anos.  É a TERCEIRA principal causa de morte no país, seguido por acidentes e homicídios.

Quando comecei meu tratamento e percebi o que eu tinha tentando fazer mais de uma vez, prometi a mim mesma que ia falar disso abertamente com quem precisava saber, principalmente com meus amigos mais próximos, a quem contei o episódio mais grave. Levei mais de um mês para falar com outra pessoa que não minha terapeuta sobre o assunto, mas sentir o apoio daqueles que me amam foi essencial para a minha recuperação.

Por isso também quis escrever este post. Todo mundo tem problemas, mas não é novidade que as pessoas lidam com as coisas de maneiras diferentes, nem que a depressão é um assunto sério e que precisa ser tratado como tal. De vez em quando, tudo o que uma pessoa precisa é alguém para ouvir o que ela tem a dizer e se sentir reconfortada por ter alguém com quem conversar.

Se esse for o seu caso, não se acanhe: pode me mandar um email, um comentário, um inbox. Eu estou aqui para ouvir o que você tem a dizer! Mas, se você quiser conversar com alguém mais profissional, tudo bem, não tem problema! Aqui no Brasil, o CVV (Centro de Valorização da Vida) está aí para ajudar, é só discar 141 ou mandar um email ou mensagem via Skype para eles (também tem um chat e atendimento presencial). Mas, mais importante do que isso, se você se acha capaz, não tenha medo de pedir ajuda. A quem quer que seja.

Se você está do outro lado, se percebe que alguém que você ama está agindo de forma diferente, parece deprimido, converse, de verdade. Escute o que a pessoa tem a dizer. Os sinais podem estar ali.

E, talvez, mais importante do que qualquer coisa, é lembrar que em um caso desses, ninguém tem culpa de nada. Os sinais podem passar despercebidos, o desespero pode ser grande demais e o triste fim, algo inevitável. Mas acreditem quando eu digo que sempre, SEMPRE, vai existir alguém pronto e disposto a te ajudar. Não tenha medo de procurar esse alguém!

Enfim, queria mesmo abrir esse tópico aqui não só porque escrever sobre esses assuntos tem sido muito bom para mim, como eu também acho – e espero – que possa abrir uma porta de diálogo para quem precise.