Diário#15- A vez que senti o amor

Eu achava que continuava sentindo as coisas como sempre. Todos os sentimentos: alegria, tristeza, amor. Mas a verdade é que, quando tudo o que você é o tal do cachorro preto, os sentimentos bons meio que se perdem no meio dos ruins, e fica difícil de perceber o que realmente é alegria e o que é desespero disfarçado de ‘tá tudo bem’.

Há algumas semanas, eu fui a um programa que frequento, e perguntei para o fundador da escola como eu fazia para viver sem medo. Ele me explicou que isso leva tempo e treino, mas que querer já era meio caminho andado. Querer ver com clareza. O que, claro, é o que eu quero, tanto que até já dei adeus para o tal medo, apesar de ele ainda aparecer de tempos em tempos tentando saber como eu estou.

amor

Outra coisa que eu falei, naquela ocasião, é que, às vezes, eu sentia como se não soubesse que o amor que eles tanto falam na escola existia dentro de mim. E aí, minha gente, a coisa mais maravilhosa do mundo aconteceu: ele pegou na minha mão, olhou bem fundo nos meus olhos e me disse ‘está tudo bem‘. E eu senti.

Eu senti o amor. Não se enganem, não é o tipo de amor romântico que vocês estão pensando. É o amor mais puro que eu já senti na vida, e pareceu como se fosse a primeira vez que eu sentia qualquer coisa. Naquele momento, não existiam dúvidas, não existia medo, não existia tristeza, depressão, desespero. Não existia nada além daquele sentimento maravilhoso que ocupou cada centímetro do meu corpo, lembrando que eu estou viva e que, sim, o amor existe dentro de mim, eu só preciso acreditar.

No dia seguinte, acordei num estado de êxtase tão grande que não consigo nem explicar. Foi como seu eu ainda estivesse meio sonolenta, lutando contra a dormência e o sono, e, naquela hora, eu estava, de verdade, acordada. Sentir aquilo me lembrou o quão maravilhoso é acordar todos os dias e me sentir bem comigo mesma e me amar, coisa que eu nunca tinha experienciado antes, eu acho.

Agora mesmo, enquanto escrevo estas palavras, sinto o sentimento crescer no meu peito, uma dorzinha boa me avisando que ele está ali, querendo ser sentido, e eu deixo ele tomar conta de mim e trazer lágrimas aos meus olhos, me lembrando que ele esteve aqui o tempo todo, eu só estava muito distraída com ideias sem sentido para prestar atenção.

Que alegria que é sentir esse amor, por mim, pelo próximo, por tudo! Não sentir medo, não ter dúvidas, não questionar cada passo que eu dou sem ficar paralisada de medo pelo o que os outros vão pensar de mim.

Aquela noite de abril, com certeza, foi uma das mais bonitas da minha existência, porque me fez acordar para o fato de que eu estou viva e que eu amo e sou amada.

Eu não tenho ideias

Outro dia fui pensar sobre um assunto e… E nada. A verdade é que sou uma pessoa desprovida de ideias. Sabe como é? Você senta na roda de amigos, no bar mais próximo, e percebe que não tem nada a dizer sobre o assunto do momento.

Eu não sou uma pessoa criativa. Quer dizer, existem pessoas que tem ideias mirabolantes, maravilhosas, que mudam o mundo… Já eu não. Tenho pouquíssimas ideias e, quando elas aparecem, são aqueles pensamentos repetitivos e engraçadinhos que, na verdade, servem apenas para divertir o grupo em meio à uma sessão de brainstorming.

ideias

Falando em brainstorming… Mal sei o que é isso. Me dê uma folha em branco e veja a fumaça sair pelas orelhas, uma reação imediata à pressão que é inventar qualquer coisa que ocupe aquela tela em branco. Aliás, nem me fale em telas, porque se pensar ideias aleatórias já é difícil, imagine criar uma verdadeira obra de arte.

Eu não tenho ideias. Sou uma pessoa que não tem ‘esse tipo de criatividade‘ porque, sabe como é, nem todos podem ser gênios criativos. Minha cabeça é como um céu nublado, nuvens amorfas voando de um lado para o outro, sem rumo, sem nunca dissolver em grossas gotas de chuva nem dissipar com a presença do vento forte.

Minha cabeça é vazia de ideias porque minha mente nunca teve muito tempo parar digerir direito aquilo que come. Convenhamos que a velocidade e a voracidade do mundo atual pouco espaço deixa para a boa digestão de inspirações.

Diz Austin Kleon que “você é a soma de suas influências“, mas, realmente o que é uma influência? Seriam os livros que eu engulo sem pensar muito bem onde começam e quando terminam? Os seres criativos – de verdade – que eu acompanho através de 140 caracteres? As manchetes que eu casualmente leio, sem grande profundidade, enquanto corro em direção ao ponto de ônibus todos os dias pela manhã?

Sou desprovida de ideias porque, provavelmente, nunca parei para cheirar as rosas e observar a perfeição de suas pétalas, ou para sentir o gosto daquele macarrão com presunto de parma que eu comi naquele restaurante naquele lugar que eu nem lembro mais onde é. Daquele dia lembro só do sol de inverno aquecendo com paciência o meu corpo enquanto em comia talvez o prato mais bem feito que já vi na vida.

Sou tão sem ideias que até escrever este post foi um parto. Senti, no fundo da minha mente, surgir uma luz morna, fraquinha, que entre um piscar e outro dizia ‘olha pra mim, eu sou uma ideia!‘. E eu relutei a olhar, a princípio, até que me dei conta que talvez perdesse mais uma oportunidade incrível e corri feito uma alucinada atrás da luz, que insistia em fugir de mim. Gritava ‘Ideia, volta aqui, eu preciso de você!‘, mas ela me fez sofrer até que, enfim, conseguisse segurá-la forte com as duas mãos e passá-la para este papel metafórico.

Queria ter mais ideias sobre mim, sobre você, sobre o país e sobre o mundo. Queria transformar uma folha em branco em uma mandala de mil cores daquelas que você quer enquadrar de tão bonita. Queria fazer retratos em carvão em uma praça qualquer e queria ter o tipo de criatividade que faz as pessoas falarem ‘Puxa, queria ter ideias assim!‘.

Queria ter mais ideias, mas na falta delas, coloco pensamentos aleatórios no mundo, esperando que algum deles grite que sim!, eu fui criativa, ou que, simplesmente, desanuvie esse céu multicolorido e traga de volta o olhar tecnicólor da criança que eu deixei para trás.

Porque este ano eu comemorei a Páscoa

Eu já fui bastante religiosa. Minha família é católica, eu fui batizada e ia à missa com os meus pais e o meu irmão todos os domingos. Depois de um tempo, essa ligação com o catolicismo sumiu, porque eu comecei a questionar muitas coisas, e aprendi que algumas das minhas crenças eram diferentes daquelas que a Igreja pregava. Hoje, digo que sou muito mais budista do que católica, mas isso é assunto para outro post.

A Páscoa terminou ontem, mas posso dizer, com convicção, que este ano eu a celebrei. Não se enganem, eu não reencontrei a minha veia católica, não fui à Igreja, nem nada disso (não que tenha algo errado com isso! Cada um tem a sua crença e a celebra de acordo). Mas, para mim, esse ano o rito de passagem, de morte e ressurreição, de libertação, fez muito mais sentido. Não porque aconteceu com alguém há mais de dois mil anos, mas porque aconteceu comigo.

pascoa

Pode parecer um exagero, mas ano passado, eu percebi que estava morta. Por dentro, era como se fosse isso mesmo. Eu já não sentia mais nada, não queria sentir mais nada, não queria fazer nada. Eu sobrevivia, dia após dia, sem nunca estar presente em nada do que eu fazia. Hoje eu percebo de onde tudo isso vem, mas, naquele momento, era como se eu nem mesmo estivesse viva, apesar do meu coração continuar batendo e eu inspirar e expirar a cada segundo.

Com a virada do ano, fiz uma promessa de que 2015 seria diferente, de que eu sairia daquele ponto baixo para nunca mais voltar e hoje estou mais forte do que jamais fui, reaprendendo a viver. Eu, de verdade, renasci. A meu ver (e que fique claro que essa é a minha opinião pessoal), fé alguma me tiraria daquele ponto se eu não pudesse acreditar, de coração, que eu sairia dali. Se em algum cantinho do meu corpo eu ainda achasse que ele fundo do poço era o meu lugar, que eu merecia aquilo e tudo o que vinha junto, toda a dor, todo o sofrimento. Não, gente, eu não mereço viver sofrendo, ninguém merece.

Então, sim, este ano eu celebrei a Páscoa. No domingo, eu olhei ao redor e me senti feliz por estar viva, por poder sentar com a minha mãe e a minha cachorrinha na padaria, tomar um suco e não sentir culpa por respirar, por ocupar o espaço no mundo de alguém que é ‘mais merecedor’. Todos nós somos igualmente merecedores de um lugar ao sol. Acho que eu, finalmente, estou encontrando o meu.

Com isso, eu digo: feliz Páscoa para todo mundo. Que vocês também renasçam, se encontrem, se transformem, se libertem e percebam, todos os dias, como é bom estar por aqui.

Carta aberta para o medo

Eu sei que você gosta de andar abraçado. Você me segura quase que pelo pescoço como se eu fosse esquecer de você a cada esquina, não acha justo eu sair de casa sem você e mesmo quando eu te esqueço, você aparece de surpresa para me fazer companhia na hora do almoço.

Desculpa ser assim tão direta, mas eu tenho que falar algumas verdades. E preciso começar com: acabou. Desculpa, Medo, mas o nosso relacionamento acabou. Foram 27 anos de cultivos diários, mas infelizmente não dá mais para mim.

medo

Entenda uma coisa, não é você sou eu. É que eu cansei de temer todo e qualquer passo que dou, de repensar cada uma das milhões de decisões diárias que eu tomo, por sua culpa. Cansei de me sentir inadequada por causa do seu comportamento dominador e abusivo. Você não me ama de verdade. Quando perceber isso, vai ver que nem doeu tanto assim.

Tchau, Medo. Não sei dizer se foi bom enquanto durou porque o nosso relacionamento sempre foi um de submissão. Você entrava na minha cabeça com essas suas garrinhas afiadas e deixava a minha visão turva, escura. Você distorcia o meu pensamento e esperava que eu fosse feliz assim, com meias-verdades e vivendo uma vida pela metade.

Adeus, Medo. Confesso que não estou triste em te ver partir. Ou melhor, em ME ver partir. A verdade é que agora eu sou mais eu. Eu estou aprendendo a me amar, a gostar de mim mesma, a querer me arriscar nesse mundo grande e ver o que ele reserva pra mim. Você não pode vir junto. Só vai atrapalhar a minha falta de planos e turvar uma certeza que eu busquei por grande parte da minha vida: eu quero viver. Então, me deixa ir.

Cansei de sentir você crescer no meu peito sempre que eu reconhecia algo que não tinha e que queria, mas você reafirmava toda santa vez que eu nunca poderia ter. Afinal (e aqui estou usando as suas próprias palavras), ‘eu não sou boa o suficiente‘.

Vai embora, Medo. Se agarre em outra pessoa, se é que alguém te quer de verdade. Eu cansei de você, das suas mentiras, do seu humor autodepreciativo e de todas as vezes que você fez com que eu duvidasse da minha própria capacidade de ser incrível.

Sai logo daqui, não demora. E nem tenta argumentar. A partir de agora eu sou surda para qualquer coisa que você queira me dizer. Infelizmente, não terminamos de forma amigável. Você me fez sofrer muito e eu me culpava, achando que de alguma forma a errada era eu.

Olha, eu não queria brigar, mas você precisa ouvir o que eu tenho a dizer. Você calou a minha boca por tempo demais e eu não aguento guardar para mim todo esse sentimento que ficou escondido por 27 anos. Agora é a minha vez de falar. E enquanto eu gostaria mesmo era de dizer que a partir de agora sou eu quem te domina, nem isso eu quero mais. Quero que você vá embora de uma vez e não volte. Não turve a minha visão com as suas lágrimas, eu quero ver com clareza. 

Eu quero sentir aquela alegria que se espalha no peito todos os dias quando eu acordo e percebo que tenho mais um dia para fazer da vida o que eu quiser, ou o que ela quer que eu faça, afinal, o meu controle vai só até a página dois. Você não me permite isso, Medo, e eu preciso dizer que dediquei tempo demais pra essa relação totalmente destrutiva e que, até hoje, não me trouxe nada de bom.

Mas, olha, se você tiver que aparecer mesmo, que seja só um friozinho na barriga, tá? Não venha com força total e não me faça questionar os meus talentos e os meus sonhos novamente. Não me apequene. Se tiver que vir, que seja daquela maneira suave que mostre como o que eu tô fazendo é assustador, mas, ainda assim, maravilhoso. Não tire novamente a minha felicidade com as suas desculpas e histórias mal-contadas.

Não me faça mentir para mim mesma novamente. De tudo o que você fez, isso com certeza foi o pior. Não faça com que eu me engane de novo, que invente histórias malucas para justificar o seu comportamento. Não confunda os meus pensamentos nem me faça tirar conclusões precipitadas. Você e eu sabemos que eu sou a única a sofrer com tudo isso.

Então, adeus, Medo. Espero que você encontre o que procura no mundo, que você ainda tenha algum lugar quando as pessoas perceberem que te amar é doentio e desnecessário. Não insiste, tá? Eu te quero longe daqui até o fim do dia. E se esquecer alguma coisa, pode deixar que eu peço para alguém te entregar, não precisa passar aqui pra buscar.

3 coisas para fazer depois de formar

Daí que você conseguiu terminar a faculdade. Pegou o diploma, usou aquela beca ridícula, fez a festa e comemorou a sua capacidade de sobreviver ao TCC até altas horas da madrugada. Mas passado o momento de alegria, aquela felicidade repentina de acabar mais uma fase da vida você se vê… Não tendo ideia do que fazer dali em diante.

É normal se sentir um pouco perdido depois que você, finalmente, termina o ciclo de estudos completo que a sociedade espera que você faça. Parece que alguma coisa está faltando agora que a fase adulta finalmente começou e você pode até se sentir um tanto quanto inadequado se não é um dos sortudos que sempre soube o seu talento e o que queria fazer da vida. Se você foi efetivado no estágio, pode ser que sinta que o emprego não é pra você. Se você está desempregado, pode achar que nada daquilo fez sentido algum.

formatura

Mas não tente se desesperar. Sempre existe uma solução para tudo, e se você não tem ideia do que fazer depois de se formar, aqui vão três dicas:

formatura-1Tire um mês, uma semana, um ano para conhecer aquele lugar que você sempre quis, mas não teve a oportunidade enquanto estava na faculdade por N motivos. Aproveite para fazer as coisas com calma, nunca se sabe o futuro, então se você pode fazer isso agora, aproveite o máximo que puder (e tente planejar para fazer isso depois também!). Faça um mochilão, trabalho voluntário no exterior, um curso de especialização… Mantenha-se curioso!

formatura-2Se você acha que a faculdade que você fez talvez não seja o caminho que você quer seguir, faça cursos! Muitos deles, aprenda o máximo possível! Faça contatos, converse com pessoas diferentes, entenda melhor o mercado em que você quer entrar ou criar – nunca se sabe. Aliás, isso vale também se você gostou da faculdade que fez e se você não é mais tão recém-formado assim. Aprender nunca é demais.

formatura-4Se você não tem ideia do que fazer agora que está formado, se o trabalho não está legal, se o curso não foi o que você esperava, não tenha medo de pedir ajuda. Não precisa ser necessariamente para algum familiar, mas para pessoas da área que você está ou para a qual quer ir, pessoas que você admira de alguma forma. Às vezes uma palavra de reafirmação é tudo o que você precisa, e às vezes aquele banho de água fria pode ser bom também. Mas lembre-se: peça ajuda sem esperar nada em troca, seja educado e respeitoso. Não espere que a pessoa resolva todos os seus problemas, porque quem tem que fazer isso é você mesmo.

Vocês conseguem pensar em alguma outra coisa legal de se fazer? E, olha, preciso dizer que é bem normal MESMO se sentir meio perdido (eu me sinto assim até hoje!), e tudo bem se você achar que o curso que fez não é exatamente o que você queria da vida, isso não é o fim do mundo e, ao contrário do que as pessoas podem dizer, você não perdeu tempo algum. Acho que somos ‘obrigados‘ a escolher uma profissão muito cedo e é normal mudar de ideia!

(Ps: esse post foi feito em homenagem ao meu irmão que teve a coragem – e é coragem mesmo – de começar outra faculdade só pra seguir a profissão que ele queria! Você é meu orgulho, Lo!)