inspiração
escrita te ama laptop

vou contar uma coisa pra você: eu tô com a ideia desse post na minha cabeça tem alguns meses – meses! -, mas tava numa preguiça sem fim de colocar a coisa no papel. chame de burnout, de estresse de fim de ano de ‘a Maki mudou de casa e tava cheia de trabalho e não conseguiu escrever só pelo prazer de escrever‘. sei lá.

mas essa pergunta do título ficou martelando na minha cabeça o tempo inteiro. foi depois que eu li A Grande Magia, da Liz Gilbert (eu já falei que você tem que ler esse livro? sério, leia esse livro!), porque ela fala exatamente disso na parte sobre “Confiança”:

“A única coisa que posso dizer ao certo é que toda a minha vida foi moldada pela decisão que tomei muito cedo de rejeitar o culto do martírio artístico e depositar minha confiança na ideia louca de que meu trabalho me ama tanto quanto eu o amo.”

eu nunca tinha parado pra pensar nisso, sabia? que a escrita também me ama, tanto quanto eu a amo, e que ela tem algo pra me ensinar tanto quanto eu tenho ideias pra colocar no papel.

acho que a gente tem uma ideia muito distorcida do que é ser alguém criativo e, principalmente quando a gente fala sobre escrever coisas, uma crença doida de que isso tem que ser sofrido.

tipo, você tem que ter passado por dificuldades pra ter alguma coisa pra escrever sobre.

se você não tiver uma história de superação, por que as pessoas vão querer ouvir o que você tem a dizer?

não é doido isso? a coisa fica envolta por uma vibe sacrifício, por uma coisa difícil e complexa que você não consegue fazer se não tiver um pré-requisito X e passar os seus dias trancada numa sala escura com uma pilha de xícaras de café na mesa do lado e um caso sério de bloqueio criativo.

e, olha, eu já compartilhei muito dessa visão, viu?

mas tô aqui pensando nessa pergunta que a Liz propôs no livro dela – se eu sei que a escrita também ama -, e sentindo uma vontade louca de me dar um pontapé porque eu sou muito ingrata com as palavras.

tipo, eu não me permito curtir o que elas têm pra entregar, sabe?

tem tudo a ver com aquilo que eu já falei sobre o quanto a gente presta atenção no que tá fazendo na hora que escreve, na sensação que a gente coloca e – meu Deus! – eu mesma me peguei muitas vezes desde então sendo a filha mimada que acha que o mundo gira em volta dela.

a gente meio que faz as coisas achando que tá fazendo um favor pro mundo (e não de um jeito legal) e tem que mostrar pra ele o quanto isso foi sacrificante e difícil e nem um pouco fácil e prazeroso.

e eu fico voltando de novo e novo pra esse capítulo do livro da Liz e me perguntando o quanto eu tô topando escrever e fazer as coisas que eu tenho pra fazer com uma “felicidade obstinada”, sentindo todo prazer do mundo, porque a escrita me ama também. sabe?

é porque parece mesmo que o mundo é unilateral e as coisas acontecem de um lado só. a gente faz coisas e não recebe nada em troca (ou, também, é meio que obrigado a receber alguma coisa em troca – de preferência dinheiro), e fica sempre nessa expectativa de que algo volte pra gente quando esse algo já tá voltando, a gente só não tá prestando atenção.

e aí parece que você precisa de Um Grande Momento de Inspiração™ pra escrever um texto inspirado que vai viralizar e trazer todos os louros que isso tem a oferecer (se bem que vocês já sabem como foi a minha experiência com isso, né?).

eu também fico pensando no Austin Kleon, e como ele tem um hábito de fazer um post por dia no blog dele e nem sempre são textos incríveis e inspirados, mas um compartilhar de coisas que tão na cabeça dele – e que as pessoas gostam de ler.

o que eu tô querendo dizer com tudo isso é que esse não precisa ser um processo sofrido e que a gente pode apreciar o que a escrita faz pela gente tanto quanto o que a gente faz por ela.

afinal, se a gente é um canal que recebe ideias pra compartilhar com o mundo (nas palavras da própria Liz), então a escrita é a ferramenta que permite que a gente faça isso, né? a gente tem que agradecer por ela mesmo e acreditar que ela gosta da gente também.

sei lá. eu senti vontade de começar a trabalhar desse jeito. acreditando que a escrita me ama e usando dessa felicidade obstinada pra tirar da cabeça as ideias que vem pra mim. e meio que agradecer mesmo. ter carinho e orgulho das coisas que eu escrevo, mesmo que eu não as considere como o próximo grande clássico da literatura.

(porque, vamos combinar, a gente nunca sabe o que pode acontecer, né?)

“Nunca peça desculpas, nunca dê muitas explicações e nunca se envergonhe de sua criação. Você fez o melhor que pôde com o conhecimento e os materiais que tinha e no tempo que lhe foi disponibilizado”.

Liz Gilbert, A Grande Magia

ps: as fotos desse post foram feitas pelo @leo_lf. brigada pela ajuda, Leozinho!

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Escrito pelaMaki
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22 Comentários
  1. Gabe Pinheiro  em março 15, 2019

    Texto lido no dia e momento certo. Eu amo escrever, amo blogar e já tem um tempo que venho sentido essa coisa de “preciso passar por algo difícil para poder escrever algo bacana e tocante nas pessoas”, e isso tem me travado de uma forma que eu não consigo, simplesmente, abrir o word ou pegar um caderno e começar e só começar a escrever.

    O seu texto me fez lembrar o primeiro blog que criei e que escrevia de uma forma tão mais leve sem desprendimento, sabe? Eu tenho o livro do Liz e vou reler ele novamente, como forma de me lembrar que o processo criativo não precisa ser doloroso e que, SIM, a escrita me ama. E como todo amor, preciso regar ele todos os dias, estimular ele todos os dias.

    um beijo

    • Maki  em março 16, 2019

      siiiim, Gabe! faça isso. porque escrever tem que ser uma coisa gostosa, sabe? que você curte mesmo. não pode ser sofrido. não tem nem porquê ser assim! <3

  2. Laysla  em março 06, 2019

    Oi Maki! Como está? Espero que bem. Eu acredito que a escrita me ama. Houve um período que precisei me afastar dela, mas sentia o seu chamado. Ela me conecta comigo. E vejo que é assim com você. Dá pra sentir.

    Beijos!
    Lay.

    • Maki  em março 10, 2019

      que bom, Lay! fico contente em saber <3

  3. Letícia  em março 02, 2019

    Estou relutante em voltar com o meu blog já faz um tempo, embora eu escreva eu claramente não escrevo tão bem quanto antes, me perco nas frases e as vezes nem consigo colocar o que eu estou pensando em escrita. Acompanho seu blog a um tempo, e toda vez que eu entro aqui é uma injeção de animo, sempre acabo produzindo alguma coisa. Hoje eu ia passar esse post mas vi “Grande Magia” escrito e decide voltar do inicio e ler tudo.
    QUE TAPÃO NA MINHA CARA. Era o que eu precisava ler, obrigada, do fundo do meu coração.

    • Maki  em março 10, 2019

      aaaaa Letícia <3 espero que tenha ajudado, mesmo!

  4. Marina Menezes  em março 02, 2019

    Amei o texto! Pensei muito no meu processo de escrita da monografia (eu escrevi ano passado então to falando muito a respeito rsrs), que, conversando na terapia sobre o sofrimento QUE SERIA escrever o TCC, a minha psicóloga me perguntou pq tinha que ser um sofrimento. Sabe quando o mundo vira de ponta a cabeça? Foi mais ou menos isso. Porque eu nunca tinha parado pra pensar que escrever (uma coisa que eu gosto, assim como você) podia ser prazeroso, mesmo que fosse uma coisa acadêmica. Aí eu tô tentando levar esse pensamento pro meu blog e voltar a escrever apenas pra me divertir, sem esperar mundos e fundos em troca, ou sem esperar ser O texto, que faria Shakespeare ficar emocionado.

    • Maki  em março 10, 2019

      Marina, SIM! é bem isso mesmo. por que tem que ser sofrido, dolorido, complicado? não precisa mesmo!

  5. Natália Jardim  em fevereiro 28, 2019

    Acabei de conhecer o blog e estou apaixonada.

    • Maki  em março 02, 2019

      aaaaa, que bom saber disso, Natália! <3

  6. Beca  em fevereiro 25, 2019

    Testando comentário.

    (eu tinha feito um lindooo sobre esse post, mas quando deu erro perdi ):

    • Maki  em março 02, 2019

      aaaaa becaaa :/ que pena!

  7. Giovanna  em fevereiro 24, 2019

    Estou a quase cinco minutos olhando para a tela do computador pensando no que escrever. Isso para falar só de hoje, porque na verdade mesmo estou a meses tentando achar palavras para comentar aqui nessa caixinha azul.
    O que se tem a dizer depois de alguém já ter dito tudo e mais um pouco?

    Que delícia esse blog. Que astral. Que felicidade.

    Tento constantemente explicar para as pessoas minha relação com a escrita e agora tudo foi resumido a um link que mandarei a todos que me perguntarem.

    • Maki  em março 10, 2019

      aaaaaa Giovanna! sério, que incrível ler isso! eu fiquei tãaaaaao feliz! mesmo <3

  8. Larissa Zorzenone  em fevereiro 17, 2019

    Que post lindo, bem o que eu precisava ler no momento. Eu amo escrever e ando produzindo bastante pro blog, mas faz tempo que não consigo escrever literatura, que é algo que gosto tanto. Ler seu post me ajudou a perceber que minhas histórias precisam de mim tanto quanto eu preciso delas.

    Vidas em Preto e Branco

    • Maki  em março 10, 2019

      isso, Lari! é uma via de mão dupla!

  9. Isadora Xavier  em fevereiro 17, 2019

    Esse texto foi feito pra mim, eu amo escrever, não tenho feito isso com muita frequência e recentemente voltei a postar no meu blog no qual pretendo compartilhar coisas que eu gosto, mas também o que eu penso e sinto, mas pensar se as pessoas vão querer ler o que eu escrevo por ser simples demais me deixa meio ansiosa, então até ler este texto, eu fico em um mood de ficar esperando a inspiração aparecer ou grande acontecimento suceder pra poder escrever sobre, então meu muito obrigada por me confortar e dizer que as coisas não precisam ser assim. E mais uma vez, eu amo seu blog e quero colar ele na testa.

    • Maki  em março 10, 2019

      hahahaha Isa, adorei o “quero colar ele na testa!”. brigada por isso e fico feliz que o post tenha te ajudado!

  10. Jessie Faustino  em fevereiro 16, 2019

    Hey, Maki. Como tu estás?
    Acabei de acordar e senti uma vontade absurda de entrar no teu blog. Hoje é uma manhã daquelas que a gente acorda com mais sono do que quando foi dormir e com o corpo dolorido. Fisicamente cansada, mentalmente esgotada e psicologicamente ansiosa, rs. Há algumas semanas não tenho feito coisas que realmente gosto (e devo), e (como sempre) teu texto me ajuda bastante a refletir sobre isso.

    Também me fez lembrar sobre um texto que escrevi (sobre o prazer da escrita, e te convido a ler caso sinta interesse). Mas principalmente, a tua reflexão me fez olhar as coisas que eu tenho (a escrita criativa e derivados) como não só algo meu para mim ($), entende? Mas também algo meu para o mundo (do qual eu já sabia, mas que por vezes, diante de alguns problemas maiores, me esqueço); e algo da própria escrita para mim (terapia). Alguns de nós acreditamos que precisamos receber algo em troca ou viralizar de algum jeito na internet, quando o próprio dom de escrever já é a nossa benção. Como você disse, devemos nos sentir gratos por ter esse canal de transição e comunicação em forma de Arte.♥

    P.S.: Amei o trecho do Liz Gilbert que você escolheu para o final. ♥
    Jessie do blog Cacto Florido 🌵

    • Maki  em março 10, 2019

      Jessie, brigada mesmo por esse comentário incrível. e eu concordo super: a gente fica tão preocupada esperando um retorno disso que não aproveita o processo e o que a gente já pode aproveitar com o que tem disponível sabe?

  11. Dory  em fevereiro 14, 2019

    Esse texto é como refrigério! Esse ano começou tão conturbado, mas a sua publicação me trouxe mais leveza <3 saber que tudo bem eu não acreditar no conto do "Precisa ser sofrido pra ter valor" \o/ eu pensava que eu era muito estranha,mas na verdade era algo dentro de mim querendo me avisar que algo de errado acontecia no mundo 🙂 Muito obrigada pelo texto Maki! (eu sei que não foi redigido especialmente para mim, mas eu quero agradecer pela sua transparência)

    • Maki  em março 10, 2019

      Dory, eu fico muito, muito, muito feliz que o texto te ajudou, sério! porque é isso mesmo: o conto do “precisa ser sofrido pra ter valor” é mentiroso! não acredita nele, não!