diário #86 – não tem espaço pro ódio no meu coração

sobre o ódio

chega. cansei. enough is enough, já diriam os gringos. vivi com o coração escuro por tantos anos e agora já chega. não tem como continuar em frente com o coração cheio de ódio. como é que as pessoas vivem assim? como conseguem dormir à noite sabendo que odiaram tanto, por tanto tempo?

nunca gostei da palavra porque me parecia um sentimento extremo demais. ledo engano, trocar ‘ódio’ por ‘raiva’ não faz o sentimento menos nocivo. também costumava me orgulhar e dizer que não sentia ódio por nada nem ninguém. outra mentira. se não odiei os outros, me odiei por tempo o suficiente para a marca dessa raiva aparecer na pele.

andei a passos apressados sem olhar para o outro, cravei as unhas nos braços, arranquei cabelos, tropecei, bati, trombei, acordei com manchas roxas no corpo que eu nem sabia de onde vinham. tudo acidente, resultado de uma pessoa desastrada e que não sabe medir distâncias? não, puro ódio. ódio de mim.

mas já chega. eu cansei. odiar cansa. dá rugas e enche os olhos de lágrimas doídas, faz as unhas quebrarem, o cabelo perder o brilho e os olhos ficarem opacos e sem vida. é isso. o ódio tira a vida de mim e me diz, de novo e de novo, que eu não sou o suficiente.

o ódio confirma que eu não sou boa o suficiente e é uma ilusão achar que só porque eu uso uma palavra diferente pra falar dele, ele não é igual ao das pessoas em guerra. é tudo farinha do mesmo saco, tudo a mesma coisa. raiva é raiva e ponto. não existe mais ou menos. não é melhor ou pior.

e cansa. deixa os ossos doloridos e as costas curvadas. me tira a vontade de levantar da cama e me faz pensar que o mundo não vale a pena. e cada vez mais, cada vez mais, eu lembro que eu me comprometi a não desistir. a mostrar um caminho, a ser a referência. e desistir do ódio é a minha meta.

desisti um pouquinho e percebi que o rosto ficou mais leve, os traços mais suaves, o sorriso mais acolhedor. eu substitui mais desse rabisco confuso pelo amor e os ombros ficaram menos tensos, os olhos mais brilhantes e as mãos mais carinhosas. a gente acha que só existe o ódio no mundo e esquece mesmo que o amor é a saída que tanto busca.

o ódio deixa os dias trevosos. o amor abre sol e sopra a brisa que refresca. é confortável, quentinho, é aconchegante e cheio de gente pra compartilhar o que você sente com você. o ódio não. ele separa, divide, diferencia. coloca cada um num canto e diz que as pessoas ‘precisam se entender‘. não dá. não mais.

a gente precisa começar a desistir do que acha que é normal para descobrir que o nosso natural não tem nada a ver com andar por aí odiando as pessoas.

 

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5 Comments

  1. Responder

    Maria Tereza

    maio 17, 2017

    oi querida! que texto maravilhoso. coloquei no meu email e tenho lido todos os dias ( só para lembrar) .
    obrigada por deixar meu coração quentinho.

    • Responder

      Maki

      maio 17, 2017

      brigada você, Maria Tereza <3

  2. Responder

    Camila Faria

    maio 16, 2017

    Uma vida mais leve e bonita, com certeza. ❤

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