‘não leia os comentários’: a vez que eu viralizei

viralizei

viralizei. acho que esse é o sonho de todo jornalista da nova geração. escrever um texto que viraliza, que aparece em todas as redes sociais, recebe milhares de comentários e um alcance de mais de 100 mil pessoas no Facebook. eu consegui esse feito. escalei essa montanha, conquistei essa medalha de ouro.

viralizei. assisti uma série e escrevi um texto. pesquisei. li e reli sobre, conversei com pessoas, revi cenas, passei muito mal, pedi ajuda, chorei. terminei com a sensação de  nunca-jamais-em-hipótese-alguma quero que alguém no planeta Terra se sinta como eu me senti vendo aquela série. chorei de novo, li mais sobre, fiz pesquisas sobre a OMS e sobre o efeito Werther. passei 3 dias só com esse assunto na cabeça.

sentei no computador na segunda-feira. entendi que precisa ir por uma direção diferente, falar daquilo que não tinham falado ainda. escrevi. pesquisei mais, apaguei e escrevi de novo. o que eu senti escrevendo essa frase? raiva. não, apaga. não posso escrever esse texto sentindo raiva, preciso mudar de ideia. sentir raiva só vai alimentar a sensação que a série me vendeu (e eu comprei). pensei na morte, pensei nas vezes que eu tentei acabar com a minha própria vida e pensei que talvez essa não é uma ideia tão ruim, levando em conta a situação do mundo. parei, respirei fundo, lembrei de Deus. lembrei da minha missão no mundo, voltei a escrever com o coração tranquilo.

passei mais de cinco horas assim. escreve, apaga. muda essa frase, troca essa palavra. lê o texto anterior e vê se faz sentido. tá coerente? tá coerente, sim. manda pra equipe toda: ‘gente, lê isso aqui pra mim? me diz se faz sentido‘. ‘tá ótimo, Maki, pode publicar‘, ‘não esquece de linkar aquele texto sobre como identificar comportamentos suicidas‘, ‘escolhe uma foto que não seja da Hannah, já tem muito texto com imagem dela no site‘. tá bom, gente, brigada.

manda pra chefe: ‘chefe, tá aqui o texto, me diz se tá ok?‘. escolhe a foto, corta, coloca links, lê mais uma vez. acho que vou mudar. não, tá bom assim, não vou mexer mais. confia que tá bom. seu coração tá em paz? tá em paz. então publica. publiquei.

joga o texto no Facebook. em 10 minutos, mais de 100 reações e 50 comentários. os números de visualizações vão subindo… 100, 200, 300, 1000. meu Deus, o que que tá acontecendo? 100, 200, 300 comentários. mais de 4 mil visualizações em menos de uma hora e meia de publicação. o site sai do ar porque não aguenta esse tanto de gente junto no mesmo link ao mesmo tempo.

as mãos começam a tremer e o coração a pulsar forte. é inevitável querer ler os comentários. só críticas. ‘caça cliques!‘, ‘oportunista‘, ‘falou muita merda‘. ‘colunista bosta‘. tão fazendo comigo a mesma coisa que fizeram com a Hannah e ainda querem me dar lição de moral, falando que eu não entendi a série. hipócritas. será que eu não entendi mesmo ou será que as outras pessoas que não levaram a sério?

*não leia os comentários*não leia os comentários*não leia os comentários*. você é horrível mesmo, uma jornalista péssima. devia ter escrito o texto de outra maneira, talvez eu devesse ter usado outra palavra aqui, será que é melhor eu mudar esse parágrafo todo? não, para com isso, o texto tá bom, não adianta mexer agora. a equipe comemora, mais de 100 mil visualizações no fim do primeiro dia de publicação.

na minha cabeça, a dúvida continua: será que eu sou boa o suficiente? as pessoas não tão gostando, mas tem muita gente concordando em outros lugares. todo mundo me odeia, acho que fiz merda. para com isso, tá tudo certo. não, não, eles tão certos e eu tô errada. penso na morte e como talvez ela seja a única saída para o que eu tô sentindo. paro, respiro fundo, lembro de Deus.

agora é hora de fazer uma escolha: ou eu sigo alimentando a raiva que move o mundo ou desisto dela e pratico o perdão: nada disso importa de verdade, nada disso muda quem eu sou, as pessoas são amáveis e a minha função no mundo é cuidar de quem precisa de cuidado. só existem dois tipos de pessoas: as que entregam amor e as que estão pedindo amor. é hora de eu entregar e parar de pedir.

leio um comentário: ‘eu me amo, eu me perdoo‘. leio outro comentário: ‘eu desisto de sentir raiva para que todos sejamos salvos‘. leio mais um: ‘eu escolho sentir amor‘. eu escolho de novo e de novo e de novo. olho pra cena mais uma vez: meu Deus, obrigada por essa oportunidade incrível de escolher novamente e de desistir daquilo que não é a verdade sobre mim. leio o meu texto de novo: é isso mesmo, meu coração tá em paz. eu sei o trampo que fiz pra chegar até aqui. tá tudo bem comigo.

recebo mais comentários. alguns incríveis, outros também. mesmo aquilo que seria negativo agora eu vejo como uma chance de praticar o que eu vim ao mundo praticar: o perdão. comigo mesma, com o outro e, principalmente, com Deus. Deus, eu te perdoo pelas minhas ilusões, eu aceito o amor verdadeiro.

peço ajuda quando fica demais: ‘obrigada por me lembrar de quem eu sou‘. converso mais com as pessoas sobre isso. nossa, tô monotemática essa semana. ‘obrigada por lerem as minhas palavras‘. sempre, onde quer seja. obrigada.

só o relacionamento cura. e cura mesmo, fui atrás dele para curar a mente inquieta e insegura. é claro que tá insegura, você tá esquecida de novo! olha aqui, quem é você de verdade. você é amor, as pessoas são amor e elas precisam saber que essa lembrança é a saída que elas tanto buscam.

então, eu treino. treino mais e me lembro de novo. e toda vez que eu me lembro fica mais fácil pros outros lembrarem também. ei, você quer ajuda? pega aqui na minha mão. ué, não gostou do texto? tá tudo bem, opiniões são só isso, opiniões. no fundo, no fundo, não servem de nada. mas se você precisa delas, me permita usá-las para lembrar você de que tá tudo bem, que quem você é não muda e que nós vamos juntos até o último dia. até o sonho feliz, até a gente voltar pra casa. a gente tá com saudade mesmo.

ah, tanto faz o que você acha da série. ela é importante? puxa, é, pode-se dizer isso, sim. se eu gostei? puxa, sei lá. isso importa? ela me fez sentir coisas que desencadeou tantas outras que me trouxeram até aqui. então, sou grata. eu agradeço. e perdoo. ih, acho que não perdoei tanto assim, ainda tô sentindo uma coisinha chata no peito. para. respira fundo. ‘eu sou o amor perfeito de Deus‘. ‘nada disso muda quem eu sou‘. ‘eu sou importante‘. ‘eu tenho uma função no mundo‘. ‘eu quero entregar todo o amor que eu sou para lembrar os outros de quem eles são‘.

seguimos. eu topando aprender a cuidar. os outros topando serem cuidados.

abril 19, 2017

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22 Comments

  1. Responder

    Marcela

    abril 18, 2017

    Maki, tem muita coisa que eu queria dizer pra você depois de ter lido esse texto. Eu queria poder te abrir meu peito e te deixar ver tudo o que tá lá dentro, porque o que tem ali não tá fazendo o caminho usual pro meu cérebro e dali, já em palavra, pra minha boca.
    Acima de tudo, eu queria te abraçar. Eu queria te dar um abraço forte pra caralho.
    Você é incrível, é corajosa, é MUITO forte. Você aprendeu um negócio que vale ouro num momento extremamente difícil, e isso te faz uma pessoa única.
    Nunca deixe ninguém te convencer de que você não é especial, extremamente capaz e, sobretudo, uma pessoa boa.

    • Responder

      Maki

      abril 19, 2017

      Marcela, você é maravilhosa! muito obrigada pelo seu comentário! e tenha certeza que senti seu abraço daqui ♥

  2. Responder

    Gabi

    abril 18, 2017

    (Sou a Gabi do 187 tons de frio, mas to usando o link do blog novo que vai abrir já ja :})

    Oi Maki,
    eu li esse seu texto em questão, e de primeira não vi que era seu, só percebi depois quando a Celle postou no facebook. Eu não comentei nada sobre ele porque, 1) eu não concordei com o seu texto pq minha percepção da serie foi boa e 2) eu já tava putaça com um monte de gente que nunca passou por nenhum tipo de problema como bullying/depressão/assédio/etc falando sobre esse assunto de maneira totalmente prepotente.

    Geralmente em sites do tipo portal assim eu passo batida pelo autor e fiquei putaça com “vc” tbm, pq automaticamente achei que era mais uma dessas pessoas que citei. Depois que vi que era você, pensei “a Maki entende o que aconteceu ali tanto quanto eu, a série tbm teve os gatilhos pra ela” e aí eu relaxei, pq eu sei que sua opinião contida no artigo não foi vazia. Sei que pareço uma babaca “ain, vc não sabe o que é isso, entao cala a boca”, mas é que vi muitas pessoas querendo falar pelos outros, por quem tem transtornos e quem não tem, dizendo q a serie seria boa ou ruim para x ou y pessoas. Fiquei mto brava pq essas pessoas não tinham o direito de falar pelos outros. Tudo bem alguém gostar ou não, mas não aceito que batam numa tecla “não pode”, se partir de gente que não sabe o que está falando.

    E as reações serão diversas, como aconteceu com você e comigo. Acredito que vc tenha os mesmos gatilhos (ou similares) que eu, mas eu recebi a série de uma maneira totalmente diferente. Eu fiquei bem na bosta no quando terminei de ver, mas continuei achando que foi uma coisa boa terem levado esse assunto para tantas pessoas.

    Espero que você esteja bem depois de toda essa enxurrada de comentários agressivos (galera nunca lembra que tem uma pessoa ali do outro lado, né?) e toma aqui um abraço _o_
    Você é uma pessoa incrível, Maki, nunca esqueça disso <3
    (e eu quero desvirtualizar você ainda esse ano, hein?)

    Desculpa se meu comentário gigante estiver meio confuso =s kkk
    Beijão!

    • Responder

      Maki

      abril 18, 2017

      antes de mais nada: MEU DEUS VAMOS SE DESVIRTUALIZAR ESSE ANO POR FAVOR?
      em segundo lugar, MANO, se você olhou de novo pro texto, pro autor e isso te fez sentir uma coisa diferente, te fez escolher novo, tudo isso já valeu a pena. é pra isso que eu trabalho, sabe? pra isso que eu escrevo. caramba, eu fiquei emocionada REAL com o seu comentário. tudo bem você discordar de mim, não tem problema nenhum nisso! mas a gente topar ver de novo e lembrar que tem alguém do outro lado que pode ter olhado pra um assunto de uma maneira que a gente não viu antes por N motivos… isso é que bacana, é aí que a comunicação acontece, sabe? é aí que a gente se encontra. nossa, MUITO OBRIGADA MESMO. acho que esse foi um dos melhores feedbacks que eu já recebi na vida ♥

  3. Responder

    Priih

    abril 18, 2017

    Oi Maki, tudo bem?
    Faz tempo que não passo por aqui, mas vi o post no Facebook e precisei me manifestar.
    Primeiro porque sua abordagem é muito importante! Baseada em comentários como os seus, alertando sobre a série, eu pude ampliar minha visão crítica sobre ela.
    Segundo porque eu te admiro, acho seus textos incríveis e sinto muita simpatia por você. Continue forte e saiba que você não está sozinha, tem muita gente que te admira também. <3
    Escrevi um texto sobre a série falando sobre alguns gatilhos, mas também trouxe o viés do machismo pro debate. Te convido a conferir, se você quiser e não for muito pesado ler sobre 13rw de novo. :)
    Beijos,

    Priih
    Vamos conversar sobre 13 Reasons Why? | Infinitas Vidas

    • Responder

      Maki

      abril 18, 2017

      acho que saber que alguém me admira é uma das coisas mais surreais do mundo! mas, ao mesmo tempo, é incrível porque me faz checar de novo e de novo o caminho que eu tô seguindo. se tem gente olhando, que seja para ver um exemplo verdadeiro, né? brigada pelo seu comentário! (e pelo post no seu blog!)

  4. Responder

    Michelli Buzogany Eboli

    abril 18, 2017

    Comentários podem ser um poço de chorume né?
    Mas esquece esses comentários vazios e foca nos que importam, nos que se sentiram bem, ajudados. =D
    Pode ter certeza que esses sim valem a pena.

    Vc é foda. Não esquece.

    • Responder

      Maki

      abril 18, 2017

      podem mesmo. mas o importante é que agora eu uso cada um como ferramente pra lembrar de mim, sabe?
      e brigada <3 você é uma fofa!

  5. Responder

    Glauco

    abril 18, 2017

    Obrigado amor!
    Eu precisava ler o que você escreveu hoje e me lembrar porque estou aqui! Qual o sentido de continuar em cena… Vamos amar, se lembrar e lembrar todo mundo que não somos sozinhos, que podemos nos amar!

    • Responder

      Maki

      abril 18, 2017

      obrigado você, por ter topado se tornar um cuidador também! eu te amo!

  6. Responder

    Clara rocha

    abril 17, 2017

    nossa maki imagino como que foi seu dia e sua reação ao vivo ne, lgo na primeira hora já tinha tantos comentários, eu amei o texto e acho que você sabe como eu me senti, então concordo com tudo que você escreveu, eu não tenho depressão mas a série me deixou devastada por um tempo.

    • Responder

      Maki

      abril 18, 2017

      é uma série pesada mesmo, amor. mas tá tudo bem <3

  7. Responder

    Patricia Calfat

    abril 17, 2017

    Que texto incrível, me fez lembrar tantas coisas, tantas cartas que trocávamos em sala de aula!
    Você é linda, você é incrível, tem uma sensibilidade com as palavras (como sempre teve)
    Ler esse texto foi como estar conversando com você na minha frente com aquele jeito”maluquinha” de balançar os braços meio inquieta!! Li o que você escreveu sobre a série também, só tenho uma coisa para te dizer: VOCÊ É FODA, todo sucesso para você ainda é pouco!!! Saudades de Ma
    Beijos grande

    • Responder

      Maki

      abril 18, 2017

      Paaaaaty! não acredito, que coisa mais incrível um comentário seu aqui ♥
      não sei como agradecer. brigada mesmo pelas suas palavras, fiquei emocionada!
      muita saudade sua ♥

  8. Responder

    Ana Lira

    abril 17, 2017

    Eu te entendo.
    Respeito profundamente seu posicionamento.
    Independentemente de qualquer assunto, sua vida é válida.
    Obrigada por estar por aqui ainda e querer estar.
    Era só isso que eu queria dizer.
    Eu sou grata pela sua vida.
    Obrigada por estar aqui.

    • Responder

      Maki

      abril 18, 2017

      Ana, você me emocionou, de verdade. obrigada você por estar aqui também ♥ eu sou muito grata por você

  9. Responder

    Angela

    abril 17, 2017

    Simplesmente amo seus textos. Fico triste pelo seu sofrimento, mas ao mesmo tempo fico feliz em saber que não estou sozinha. Continue sempre sendo maravilhosamente imperfeita.

    • Responder

      Maki

      abril 18, 2017

      Angela, sabe o que é mais louco? não foi sofrimento. mesmo os momentos de dúvida me causaram uma gratidão enorme porque me mostraram uma oportunidade de fazer diferente. mas é verdade, você nunca está sozinha. e se achar que está, lembra de mim ♥

  10. Responder

    Babee

    abril 17, 2017

    Você tem mesmo uma missão na vida: iluminar nossa vida <3 E se o texto teve esse alcance incrível, é porque estava bom sim, gostar ou não da série vai de cada um, mas se não estivesse bom, ninguém iria parar pra ler, e comentar, seja lá o comentário :)

    Você é um amorzão!

    • Responder

      Maki

      abril 18, 2017

      eu amo você, bee!

  11. Responder

    Taís

    abril 17, 2017

    Oii! Acredito que tem muita gente que senta na frente do computador e descarrega todo seu ódio de maneira gratuita. Sem se importar na maneira como aquilo vai bater na outra pessoa. Mas não liga não <3
    Sempre leio seus textos e nunca comentei. Eu só queria agradecer mesmo por você escrever. Você é uma fofa e seus textos são incríveis e muito relevantes. Obrigada mesmo.

    • Responder

      Maki

      abril 18, 2017

      Taís, você é muito fofa! obrigada pelo seu comentário, ele me deixou muito feliz ♥

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