diário #85 – o mundo só precisa de uma coisa

eu lembro de todas as vezes que pensei que não conseguiria sobreviver a mais um dia. acordar cedo, tomar banho, ir para o trabalho. lidar com pessoas que eu considerava desreguladas e maníacas, pegar trânsito na volta para casa. perder minutos que eu considerava preciosos em um ônibus lotado ao invés de no conforto da minha cama.

lembro de uma amiga me dizendo que precisava se afastar. lembro de não saber como lidar com o que eu estava sentindo. e lembro ainda de não entender nem um pouco qual era o sentido disso tudo. dessa vida, desse mundo, dessa rotina escrota.

já falei muitas vezes por aqui o quanto tudo é uma questão de escolha e como eu, também, escolhi sentir tudo o que senti no passado. pode parecer totalmente contraprodutivo, mas eu sou muito grata por todos aqueles momentos em que achava que não conseguiria levantar da cama, simplesmente porque eles me levaram à outras escolhas que me trouxeram onde estou hoje.

escrevo tudo isso porque semana passada terminei de assistir 13 Reasons Why com o coração cheio de pesar. pesar porque, mais uma vez, eu vi com meus próprios olhos o quanto as pessoas estão sem esperança. pesar porque as pessoas acreditam, de verdade, que o mundo é horrível e nada tem solução.

não vou desmerecer o fato de que um dos (supostos) objetivos da série é fazer com que as pessoas olhem mais umas para as outras e pensem em como os seus atos podem afetar o próximo. não, isso faz total sentido: ao nos interessarmos pelo outro, olharmos de verdade pra quem está na nossa frente, é um ato de cura. olhando, a gente percebe o que o outro quer e precisa e então age de acordo, com carinho, com amor.

porém, o que mais me deixou com o coração apertado é como a série faz parecer que o mundo é esse poço sem fundo mesmo. que as pessoas são babacas e que não tem esperança para ninguém. no fim, são todos culpados de alguma coisa em algum grau. mesmo você, que só fez coisa boa a vida inteira, também tem a sua parcela no culpa no coração partido de alguém.

se esse for mesmo o caso, não há saída pra ninguém.

mas ainda bem que não é. ainda bem que tem jeito. e isso não é ser super otimista e acreditar em um mundo de arco-íris e sorvetes de flocos todos os dias (se bem que eu acredito que esse dia ainda virá). a saída é muito simples: ela está em uma escolha.

a nossa escolha. minha, sua, do seu irmão, da sua mãe. do moço da padaria, da cobradora do ônibus, dos meninos briguentos da escola. uma única escolha por sentir coisas que não são legais.

parece inevitável, né? eu sempre tive argumentos mil para provar que o que sentia tinha tudo ver com o ambiente em que eu estava. era o chefe, o trânsito, os amigos. era o crush que não me dava bola. mas era minha escolha.

e isso não significa que eu sou culpada por ter escolhido o que escolhi. por ter dado mais bola para as sensações ruins do que para as boas. não. eu sou igualmente inocente.

um dia eu escolhi sofrer. hoje eu escolhi ser uma referência de um outro estilo de vida. um que não vê culpa e que sabe da verdade sobre quem eu sou. sobre quem todos são. nesse lugar, não há dúvidas, não há inseguranças e, principalmente, não há culpa.

o que o mundo precisa não é saber que ele é horrível. é de uma esperança. uma centelha que espalha como fogo na palha e que lembra todo mundo que o amor é o único remédio que o mundo inteiro precisa para ser feliz. e ele começa com uma escolha: optar por amar ao invés de brigar, por olhar ao invés de ignorar. por querer bem todas as pessoas que você conhece (e que não conhece também).

é escolher pelo amor toda vez que um pensamento ruim sobre mim mesma me faz duvidar de quem eu sou. é querer o amor mesmo quando levantam a voz, quando brigam comigo (e ‘brigar comigo’ é muito relativo). é escolher me amar ao invés de odiar a minha essência e e as minhas escolhas passadas. é querer fazer diferente e dar carinho ao invés de chutes no peito.

é escolher de novo. de novo. e de novo. até que a escolha não seja mais uma escolha, mas apenas um reflexo do verdadeiro eu.

2 comentários

  1. Às vezes eu me sinto exatamente assim, me questionando se todos os obstáculos que a gente tem que enfrentar na vida valem a pena mesmo.
    Adorei o seu texto!

    1. Maki respondeu Andressa

      olha, Andressa, a gente só vê obstáculos quando acredita que são obstáculos. caso contrário, eles são dádivas que nos ajudam a ver coisas que não estavam tão claras pra gente antes, saca?

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