Diário #77- Se o Word falasse

se meu Word falasse, ele com certeza reclamaria de todos os textos que eu escrevi e não tirei dessa página branca ameaçadora. ele ficaria extremamente irritado em saber de todas as vezes que eu passei horas e horas colocando palavras nesse papel virtual sem nunca nem mesmo sonhar em tirá-las dali.

Diário #77- Se o Word falasse

meu Word provavelmente sabe mais sobre mim do que eu mesma. Ele salvou textos automaticamente e corrigiu as frases para fazerem sentido. ele sinalizou tudo aquilo que parecia estranho demais com uma cobrinha vermelha, um sinal de alerta bem visível de que ISSO AQUI ESTÁ ERRADO. e estava mesmo, tinham muitas coisas nas palavras que eu escrevia que estavam erradas.

o principal era a sensação. palavras digitadas com raiva, os dedos correndo pelo teclado naquilo que eu chamava de ‘inspiração’. na verdade, tudo não passava de um bom e velho desabafo unilateral: eu colocava para fora o que estava sentindo certa de que ninguém ia opinar sobre.

então eu escrevia. e apagava. e escrevia de novo. e apagava mais uma vez. na esperança de que só colocar tudo o que passava pela minha cabeça no ‘papel’ resolveria a questão de uma vez por todas. nunca resolvia. provavelmente nunca vai resolver.

se meu Word falasse, ele faria pouco caso de todas as palavras de amor que eu escrevi. Ele diria que se fossem reais teriam sido ditas pessoalmente e não escritas às pressas de madrugada e salvas em uma pasta secreta com o nome ‘cartas para algum dia no meu desktop. não teriam nomes enigmáticos nem sujeitos ocultos, como se uma carta sem remetente já não fosse misteriosa o suficiente.

o Word com certeza teria muito a dizer sobre a minha falta de coragem em falar para as pessoas tudo aquilo que a gente precisa falar, porque ele, que encaixota tantas memórias, em milhares de línguas diferentes, bem sabe que sentimentos guardados não contam história. que pensamentos desconexos precisam de uma ajuda além da gramatical para serem compreendidos e que não adianta de nada a gente acreditar que um amor será correspondido se a outra pessoa não sabe que ele existe.

todas as palavras não ditas que eu já escrevi gritam um único pedido: ‘ei, me nota. me ama. diz que eu sou importante e que eu não sou errada’. mas se eu quisesse mesmo ouvir a resposta eu teria, de fato, perguntado pra alguém que soubesse responder.

talvez, então, a gente escreve e apaga com a única intenção de não saber a resposta. porque saber a resposta implica em não mais imaginar como ela seria. e a gente gosta muito de imaginar pra querer a verdade dos fatos.

e a gente continua nessa de escrever e apagar até o dia que percebe que falar o que tá preso no peito é muito melhor do que ficar imaginando inúmeras possibilidades sobre o até então amor não-correspondido. No fim das contas, a gente entende que não existe pergunta sincera que fique sem resposta.

mesmo que ela seja escrita na calada da noite, ao som do CD novo da Adele e com dedos raivosos que escrevem e apagam tentando encontrar sentido no cursor que pisca pisca pisca e não diz coisa alguma.

4 comentários

  1. Chell comentou:

    “talvez, então, a gente escreve e apaga com a única intenção de não saber a resposta. porque saber a resposta implica em não mais imaginar como ela seria.”

    Melhor frase. Mas o que seria seu word se não um diário? A gente sempre fez isso rsss

    1. Maki respondeu Chell

      não é? é um diário mesmo ♥

  2. Erika/SP comentou:

    Oi Maki, que você continue publicando seus textos maravilhosos que nos fazem refletir e buscar saídas pra esses nossos probleminhas internos….. :)
    Beijos!!

    1. Maki respondeu Erika/SP

      <3 pode deixar, Erika!

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