Diário #71 – Eu queria viajar no tempo

Tá errado. Certeza que eu não tô fazendo as coisas do jeito certo. Acho que talvez o melhor a fazer é começar de novo. Apaga. Deleta. Vamos do zero outra vez, é a melhor saída.

Não sei quantas vezes eu já pensei que gostaria de voltar pra quando era criança e recomeçar. Tá tudo errado, não tem como ajeitar isso agora. A merda foi feita e eu vou ter que lidar com as consequências. Ninguém mandou fazer esse tanto de escolha medíocre.

Diário #71 - Eu queria viajar no tempo

Foto: Cassio Crow Fotografia

Para. Volta. Não inventaram a viagem no tempo ainda? Dá pra retroceder alguns anos só pra eu mudar aquela coisinha ali? Não, me deixa fazer de novo, vai. Eu sei que posso fazer certo dessa vez.

O que é certo? O que você quer dizer com essa pergunta? Eu lá vou saber? Acho que certo é tudo aquilo que deixa o meu coração em paz. E ele tá tudo, menos em paz. Ele bate rápido no peito e bombeia a adrenalina no sangue, me deixando com um frio na espinha. Isso é um sinal claro de que alguma coisa não vai bem, obviamente.

Eu queria fazer de novo. Eu sei que fiz errado. Tudo o que eu faço é errado. Tá bom, tá bom, não vou me fazer de vítima. Você tem razão, isso não ajuda de nada. Mas se eu pudesse voltar atrás… eu teria feito diferente.

Teria falado mais, brincado mais, rido mais. Amado mais. Me aberto mais. Não teria afastado aquela pessoa que eu amava tanto. Não teria brigado com aquela outra também. Não teria feito um monte de coisas e teria feito tantas outras. Teria traçado um caminho diferente.

Por que eu não faço isso agora? Bem… É tarde demais. A cabeça já tá feita, as decisões já foram tomadas e o tempo passou rápido demais pra eu reparar em qualquer outra coisa. Na hora eu não sabia, mas agora eu sei. Ou, pelo menos, eu acho que sei. No mínimo, eu quero saber.

Queria voltar pra quando eu tinha 10 anos e ainda não sabia a diferença entre seno e coseno, a importância do Tratado de Varsóvia e que não pagar a fatura do cartão junta juros e eu vou ficar o resto da vida tentando pagar isso de uma vez. Quando eu não sabia que existem ‘parcelas’, ‘financiamento’ e ‘burocracias’. Queria poder aprender tudo de novo e fazer escolhas diferentes.

Mas, talvez, você tenha rezão. Talvez eu não precise voltar no tempo pra recomeçar. Mudar de ideia não é tão difícil assim e eu já fiz isso outras vezes, porque não agora? É, eu sei que ‘mudar de ideia’ não é só escolher café ao invés de chá ou tomar o metrô ao invés do ônibus. É querer um caminho diferente, é aceitar diferente daquilo que eu imagino.

Voltar no tempo não adianta de nada se eu continuar pensando da mesma maneira. No fim das contas, os resultados seriam os mesmos, só a forma seria diferente. É tipo quando a gente acha que chá preto não vai atacar tanto a gastrite quanto a cafeína. É mudar, sem mudar tanto assim. É esperar um resultado diferente usando sempre a mesma fórmula. Não vai funcionar nunca.

É, acho que você tá certo. Me falaram uma vez que todo segundo é uma nova chance da gente escolher pensar diferente. E que é só assim que a mudança acontece, de fato. Pensando desse jeito, tanto faz se eu tenho 5, 20 ou 50 anos. As coisas nunca estão limitadas pela idade que eu tenho ou pelas escolhas que eu fiz no passado. Toda hora é hora de escolher de novo.

Me ajuda a escolher diferente dessa vez? Talvez eu ainda não saiba fazer isso sozinha. Acho que eu preciso de ajuda. Me dá até uma vergonha falar isso mas… Talvez eu não saiba o que é melhor pra mim e talvez tudo o que aconteceu comigo até agora tenha sido essencial pra eu chegar até esse momento. Quando eu decido escolher de novo.

Você me ajuda? Segura a minha mão, porque dá um pouco de medo. Me mostra o caminho, porque eu achava que sabia, mas a verdade é que eu não sei de nada. Nem sei nem se é melhor eu pedir chá ou café a próxima vez que for no Starbucks.

É. Por mais que eu queira que o Doutor apareça com a sua Tardis e me leve pra uma dimensão distante, eu sei que isso não vai mudar o que eu sinto agora. A escolha tem que ser feita em outro lugar. No coração, né?

Acho que entendi. Enquanto eu escolher com a cabeça, vou continuar no mesmo lugar, por mais que eu queira correr pra longe. No fim, eu sou o hamster na rodinha mesmo. Correndo feito louca sem sair do lugar. Preciso que alguém me mostre que a rodinha para se eu parar de correr e que dá pra sair em busca de um caminho diferente se eu me acalmar e parar de deixar a cabeça tentar encontrar a saída pra uma coisa que tem que ser vista com o coração.

É, pode não ser fácil mesmo. Mas eu confio que você vai me mostrar o caminho. Por algum motivo, meu coração fica calmo quanto você tá por perto. E eu acredito agora que voltar no tempo não resolve coisa alguma e que, se a gente for junto, a gente chega onde tem que chegar.

RELATED POSTS

4 Comments

  1. Responder

    Bruna WB

    setembro 30, 2016

    Lindo! Incrível a quantidade de sentimentos que suas palavras me proporcionaram. Adorei.

    • Responder

      Maki

      outubro 1, 2016

      obrigada, Bruna ♥

  2. Responder

    Ana Bonfim

    setembro 27, 2016

    Ai, esses seus diários! Dá uma vontade de te abraçar sabia? Eu me vi nesse texto diversas vezes, decisões erradas, vontade de voltar no tempo e mudar algumas escolhas, mas não dá e nada melhor do que poder contar com nós mesmas pra mudar a partir de agora. Obrigada por escrever isso, e por compartilhar <3

    • Responder

      Maki

      outubro 1, 2016

      *abraça forte*
      sei bem o que você quer dizer, Ana! e fico feliz que você gosta dos posts, mesmo ♥

LEAVE A COMMENT