Diário #28 – O fim do medo

Era uma vez… Eu. Uma menina comum, talvez comum até demais. Uma menina de classe média alta, com boa educação, estudiosa… ‘Boa menina’, como diziam meus pais. Uma menina que aparentava ser normal, mas que, no fundo, tinha medo de viver.

o-fim-do-medoForte, né? Você alguma vez achou que tinha medo de viver? Eu já. Muitas vezes. Eu era apavorada. Eu morria de medo de viver e descobrir o que existia nesse mundão.

Eu tinha tanto medo de viver que sempre tive pouquíssimos amigos. Nunca fui do tipo popular. Eu tinha tanto medo de viver que tive só um namorado na vida e depois dele nunca me abri de novo para aquilo que chamamos de amor. E reclamava da ‘falta’ dele, claro. Aliás, tinha tanto medo de viver que quando um pingo de amor apareceu de novo, eu agarrei com unhas e dentes e ele fugiu. E eu senti medo de novo.

Eu tinha tanto medo, que passei anos e anos trancada em casa nos finais de semana fazendo maratona de séries e sofria depois por não ter nada para contar na segunda-feira de manhã.

Eu tinha tanto medo, que não gastava dinheiro com nada que eu queria com medo de ficar sem (medo ao quadrado). Eu tinha tanto medo, que mentia pras minhas amigas pra não ir pra balada na sexta à noite e não me sentir rejeitada. Eu tinha tanto medo de sair de casa que arranjava as desculpas mais esfarrapadas pra continuar no meu quarto.

Eu tinha tanto medo, que praticamente saí fugida do Brasil duas vezes pra continuar sentindo medo, dessa vez só em um outro lugar do mundo e fingindo estar muito feliz.

Eu tinha tanto medo que também aceitava qualquer programa com as amigas por medo de perder as poucas amizades que eu tinha. E sentia tanto medo que, quando saía, queria ter ficado em casa.

Eu tinha tanto medo que acordava ofegante, no meio da noite, tremendo dos pés à cabeça pensando em como por Deus eu ia conseguir comprar um apartamento ganhando o que eu ganhava. Como ia comprar um carro (eu nem dirijo!), uma geladeira, um fogão? Como, meu Deus? Como pagar aluguel, IPTU, água, luz, internet, celular e mercado?

Eu tinha tanto medo que sentia a mão gelar e o estômago cair toda vez que sentava alguém desconhecido do meu lado no ônibus ou no metrô. Toda vez que um homem ficava perto demais de mim na rua, toda vez que eu saía sozinha depois de escurecer.

Aliás, eu tinha tanto medo dos homens no geral, que estranhava quando um deles se aproximava de mim, mesmo de forma amigável, e me perguntava ‘o que diabos esse cara tá fazendo falando comigo?’.

Eu tinha tanto medo de viver, que via as pessoas se divertindo num dia ensolarado e insistia em passear pela cidade sozinha, com a desculpa de ninguém tava a fim de fazer essas coisas comigo.

Eu tinha tanto medo, que há um ano escrever um texto como esse me encheria de medo também.

Mas o medo passou. Aos poucos, eu vi que ele era só uma criação da minha mente. Um monstro disforme que limitava cada um dos meus passos ao meu próprio comando, uma vozinha cruel que sussurrava no meu ouvido que eu tinha mais era que sofrer mesmo, me ferrar, porque a vida é difícil e não é justa e que só se dá bem quem tem sorte ou talento.

E, como a vozinha insistia em dizer, eu não tinha nenhum dos dois. Mas, ó, eu aprendi que todo medo fui eu quem criou e que eu posso descriar a hora que eu quiser. Então foi isso que eu fiz.

É isso o que eu estou fazendo. E assim, finalmente, eu estou aprendo a viver. Sem medo, sem receio, sem questionamentos, sem pausas, nem obstáculos, nem dúvidas. Sem peso. Leve e livre. Tão livre que criei o medo e descobri que era hora de me livrar dele também.

Isso sim é liberdade. Saber que o poder de criar e descriar está há uma decisão de distância. E esse texto é a minha decisão.

Decidi abrir mão do medo, parar de entrar em pânico frente a avida porque só assim eu vou conseguir cumprir a minha missão e seguir o meu caminho rumo ao fluxo natural da vida.

Abro mão do medo para aceitar o que a vida tem para me oferecer.

4 comentários

  1. Josiane comentou:

    é INCRÍVEL COMO ME IDENTIFIQUEI COM SEU TEXTO ( cHEGUEI AQUI POR UM COMENTÁRIO SEU NO BLOG DA THAIS FARAGE)
    O MEDO é bem isso mesmo, paralisante, angustiante e aterrorizador!
    Melhorei muito já, fazendo uma comparação da josiane de 5 anos atrás é uma mudança palpável, porém ele ainda está aqui!
    Admiro demais uma amiga que viaja quando dá na telha (ela diz que o único impeditivo dela é o dinheiro, e eu fico observando tudo com um distanciamento punitivo de como ela pode fazer isso? como ela quer trancar a faculdade para viajar como mochileira pela américa latina?
    Oi? e o futuro? e a estabilidade financeira? e o poupar para comprar uma casa?
    esse texto me descreveu!
    parabéns pelo blog, pois quando entro em um blog que me faz questionar vivências, eu estaciono e venho sempre!
    me aguarde que voltarei diariamente! :)

    1. Maki respondeu Josiane

      Oi, Josiane!
      Ah, que bom! Espero te ver aqui muito mais vezes!
      E, eu entendo bem o seu medo. Eu também sempre tive muito esse medo. É um trabalho diário e de hora em hora que eu tenho que fazer pra lidar com ele e perceber que ele não é real. Só uma invenção da minha cabeça mesmo!
      E bora questionar muito mais coisas!

  2. Paula comentou:

    Oi, Maki!!!

    Acabei de descobrir o seu blog através de uma pesquisa sobre guarda-roupas cápsula, mas já vi que tem outros conteúdos muito legais tb! Você ganhou uma leitora!!!:)

    Bjs, paula.

    Ps: excelente texto, btw!:)

    1. Maki respondeu Paula

      Oi, Paula! Que bom que você gostou, fico muito feliz!
      Volte sempre :)

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