Diário #27 – Somos todos Romeu

“Só ri de cicatrizes quem nunca sentiu na própria pele uma ferida”. Eu amo essa frase. É uma fala de Romeu, em Romeu e Julieta de William Shakespeare. E ela sempre me soou muito real: como você pode rir do outro se não sabe o que é dor de verdade? Como julgar outra pessoa se é tão difícil saber o que ela está pensando, pelo o que ela está passando? É impossível.

romeu-e-julieta

Não sei se cheguei a comentar alguma vez, mas Shakespeare é um dos meus autores prediletos e Romeu e Julieta, um dos meus livros mais queridos.

Li pela primeira vez quando estava na faculdade, e desde então releio de tempos em tempos, mesmo que só uma passagem ou outra, e vejo todas as adaptações para o cinema com uma frequência maior do que gostaria de admitir. Mas eu sou tão apaixonada por essa história… Não consigo evitar! (e nem quero!)

Ando pensando muito sobre essa peça. Todo mundo sempre achou que Romeu e Julieta é uma grande tragédia, uma história triste, sobre duas pessoas que morrem por conta de um amor proibido e curto demais. Mas eu aprendi a ver isso de um outro jeito.

Shakespeare é um cara que sabia muito das coisas. Ele criou uma história perfeita, para mostrar que o amor verdadeiro é eterno. Ele não morre, mesmo que os personagens tenham deixado aquilo que conhecemos como a vida.

Desde o começo fica claro que Romeu não vai viver sem Julieta e vice-versa, e também é muito claro o porquê. A gente passa a vida inteira procurando por coisas que preencham aquele vazio que todo mundo sente (e nem adianta insistir, eu sei que você sente também), aquela sensação de falta… Mas nada no mundo vai satisfazer essa carência.

Romeu não é diferente. Ele sente falta de um amor de verdade e procura nos lugares errados, na jovem Rosalina, que não sente o mesmo por ele, mas por quem ele insiste em sofrer.

Quando Romeu conhece Julieta, no baile dos Capuletos, ele percebe, de cara, que ela é totalmente diferente de qualquer outra que ele já tenha conhecido. Ela não se deixa levar por promessas vãs, tanto que, em uma das minhas passagens favoritas da história, ela pede para que Romeu “não jures pela Lua! A Lua é inconstante e muda a cada mês em sua órbita circular e teu amor pareceria variável também”.

Julieta sabe o que é o amor de verdade. E sabe que o amor verdadeiro não varia, não muda, é constante, imutável e perfeito. Por isso, Romeu sempre vai atrás dela, e não o contrário, é ele que busca sentir o que ela já sente. Ele sabe que para ficar com ela, precisa acessar um outro tipo de amor, que ele até então nunca tinha sentido.

Somos todos Romeu. Porque todos buscamos esse tipo de amor além-mundo, que não morre jamais. Romeu e Julieta atingiram a meta que tinham desde o princípio. Acabaram com as desavenças entre as suas famílias e ficaram juntos… É preciso ser muito cego para achar que a morte é mesmo o fim da vida. Ou o fim de um amor como esse.

Eu sou Romeu. Sou uma buscadora. E busco o amor verdadeiro, aquele que eu sinto o tempo todo, todo o tempo, não importa o que aconteça no mundo. Hoje sei que nem mesmo a morte me limita a alcançar essa sensação que, no fim das contas, é minha, mas que ainda precisa de uma Julieta para ser relembrada.

Sou Romeu. E serei o tanto de tempo necessário para manter comigo esse amor, que eu já sei que existe dentro de mim. Romeu e Julieta não é uma história triste. É uma das mais lindas histórias de amor e que mostra que o sentimento real não é do mundo, muito menos acaba.

Vamos reconhecer o Romeu que existe em nós. E focar a nossa visão na verdadeira busca. A busca pelo amor. E fim.

outubro 18, 2015

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1 Comment

  1. Responder

    Divana

    janeiro 4, 2016

    Que texto mais lindo Maki!
    Me apaixonei por cada palavra que você colocou nele. Eu ainda não tinha lido uma interpretação da história de Romeu e Julieta assim, tão impactante, cheia de sentimentos.
    Gostei muito! <3

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