diário #84 – os seus dedos me contam sobre o amor

os seus dedos

os seus dedos nos meus cabelos eram tão leves quanto as plumas daquele travesseiro que você ama. sentia cada um delicadamente passando por cada fio de cabelo de uma forma tão suave que parecia o vento de fim de tarde de verão batendo preguiçosamente nas folhas da macieira da calçada de casa.

eram tão leves e gentis que me fizeram sorrir devagarinho. primeiro um canto da boca, depois o outro. e um a um os dentes apareceram de forma graciosa e divertida, como se tivessem esperado por esse momento a vida inteira.
não existe no mundo todo dedos como os seus. porque, em si, não eram os dedos, era amor. e não era um amor qualquer, daquele que a gente vende por ciúmes e troca por dinheiro em qualquer esquina em busca de um pouco de reconhecimento e aceitação. não, é o tipo de amor que faz o mundo parar de girar e o coração voltar pro eixo, de onde nunca saiu. o tipo de amor que transforma tudo em obra de arte, o tipo de amor que prova que Deus existe.
naquele momento, os seus dedos eram Deus me contando sobre a beleza da vida e sobre o meu lar. sobre a vida que eu mereço ter e a alegria que passou tanto tempo adormecida no meu peito. os seus dedos me deram a voz mais afinada para cantar todas as melodias que a gente ama e me deu talento o suficiente para criar pinturas tão belas quanto o céu estrelado de Van Gogh. não é nenhum segredo o quanto olhar pra esse quadro te lembra de você mesmo.
senti os seus dedos correrem do alto da minha cabeça até a pontinha dos meus fios de cabelo e em cada segundo de contato eu me senti viva e me vi pelos seus olhos, mesmo estando a um segundo de distância de dormir nos braços de Morfeu.
todos os muros de dissolveram, as formas perderam o sentido e as cores se misturaram a ponto de se tornarem uma só luz que ligava você a mim e eu a você. unidos através de uma única linha invisível que jamais foi ou será quebrada. amor.
sentia a grama tocando as minhas pernas e pensei, por um segundo, que eu gostaria que o tempo não existisse só para guardar esse momento na eternidade. ingenuidade a minha, claro. amor de verdade não depende de tempo para acontecer e essa memória ficará pra sempre marcada no meu coração. como uma tatuagem, mas sem a tinta.
só ri de cicatrizes quem nunca sentiu na pele uma ferida, já dizia Shakespeare. e quem é que não sentiu alguma vez na vida que o amor não existe? bobagem, bobagem, mil vezes bobagem. o amor existe e está nas pontas dos seus dedos, me lembrando que o mundo tem solução e que o aperto na minha garganta não passa de uma imaginação infantil. tão claro e poético quanto o monólogo de Julieta.
somos todos crianças brincando de faz de conta esperando o pai nos lembrar mais uma vez que o que é imaginado não tem efeito. e se não tem efeito, não é nada. e se não é nada, não existe. só o amor existe e ele está tão palpável agora quanto o calor de uma tarde ensolarada de fevereiro. ele gruda na pele, braços e pernas. ele dá brilho aos olhos, ele acalma e cura. ele é. ele ensina.
os seus dedos me ensinam mais sobre mim agora do que todos os professores que já encontrei na vida juntos, e ele grita com uma voz gentil que eu não estou sozinha.
abro os olhos enfim e percebo que você não está lá. nunca esteve, na verdade. e, por momento, vejo as garras cruéis do medo me lembrarem que tudo não passou de sonho.
mas o coração quente e as lágrimas felizes me recordam que o sonho feliz é uma obrigação de todos. é inevitável, indubitável, é eterno. se acordei com um lembrete mais verdadeiro sobre mim, quem disse que eu dormi de verdade?
e se senti você comigo, quem é capaz de dizer que você não me amou? não, não sou capaz de mentir sobre a verdade. no mínimo, a sua presença me lembra que não estou sozinha, e que o sonho feliz chega para todos. se ele surge, porém, na realidade ou não, isso depende do entendimento de cada um do que é uno, do que é carinho, do que é sonho e do que é amor.

tyler oakley e a tal saída

binge

por sugestão da maravilhosa Duds, eu comecei a ler Binge, o livro autobiográfico do youtuber Tyler Oakley. nunca tive nenhum contato com ele antes, mas Dudinha falou tão bem que fiquei curiosa pra saber o que ele tinha a dizer.

eu, confesso, amo esses livros meio biográficos porque eles sempre têm lições valiosas que a gente pode tirar. é tipo um afago no coração quando você vê que a pessoa que você admira já passou por coisas parecidas e que vocês, em algum momento, se sentiram da mesma maneira. tira o peso do ‘celebridade‘ do outro lado e mostram que vocês, no fundo, são a mesma coisa.

como eu nunca tinha visto nenhum dos vídeos do Tyler, não tinha ideia do que esperar, então o livro foi, em si uma surpresa boa e ruim ao mesmo tempo. ‘boa‘ porque eu conheci uma pessoa nova, cheia de histórias incríveis, com um humor bem divertido e muita coisa a oferecer; ‘ruim‘ porque o livro me deixou com uma sensação estranha.

explico.

o Tyler conta que em 2014 ele passou por uma fase muito, muito, muito ruim. trabalhando demais, se divertindo de menos, tão focado nas coisas que ele tinha para fazer que ele esqueceu de olhar pro lado e ver o que estava acontecendo (a gente sabe bem como é isso, né?). ele explica que se sentia muito mal, começou a ressentir o trabalho dele e até teve alguns momento explosivos com os fãs. tudo muito compreensível, levando em consideração o que ele conta no livro.

o que me deixou com essa sensação ruim não foi isso. foi o fato de ele nunca dar uma saída pro que ele sentia. a sensação em que o livro termina é uma de que não existe esperança e a coisa é assim mesmo – uma hora a gente tem experiências boas, outra ruins e a gente aprende a mascarar tudo cada vez mais para parecer que está bem. tem horas que essa máscara cai e a gente chama isso de ‘fase ruim‘.

eu respeito o posicionamento do Tyler de dizer que o que vale é a experiência de cada um e que o que funciona pra ele não necessariamente vai funcionar para todo mundo – até porque isso é verdade. porém, isso não significa que dar uma saída para para uma fase ruim não seja válido e algo que as pessoas buscam o tempo todo, mesmo em um livro escrito por um youtuber.

quando a gente se sente sem esperança, perdido, e quando parece que nada dá certo, tudo o que a gente precisa é de alguém que aponte um caminho. pode ser que o caminho não dê em nada, mas eu acredito MUITO que todo caminho leva a algum lugar (dur). se não foi onde você queria chegar, no mínimo é um indicativo de que você precisa rever a rota ou então continuar em frente.

acho que todo mundo, em um momento ou outro, procura uma forma de sair desse loop em que a gente se mete, dessa sensação ruim de que nada evolui e de que a gente não sai do lugar. a única saída pra isso é entrar em contato com quem a gente é de verdade.

sabe, todo mundo cria um personagem que sai exibindo por aí chamando de ‘eu‘. uma hora ou outra esse ‘eu‘ começa a falhar e parece que você tá rolando ladeira abaixo sem ter como brecar. pra sair disso, o melhor que você pode fazer é parar, um segundo que seja, pra olhar pra você de verdade.

é silenciar a mente e buscar um lugar, dentro de você, que está sempre bem, que está sempre feliz e que está sempre lá. isso é o mais importante, você está lá de verdade. é só você querer olhar. e eu tenho certeza disso porque nenhum pedido sincero fica sem resposta e se você quiser de verdade, você vai encontrar uma maneira de entrar em contato com isso. a forma não importa muito. meditação, epifania, yoga, jogando videogame, dançando na balada. isso não interessa. o que interessa é você buscar esse contato com você mesmo, com a verdade sobre você.

e desse lugar você vai ver que tá tudo bem. tá tudo quieto. tá tudo tranquilo. e não existem problemas. desse lugar, com uma visão mais ampla e verdadeira das coisas, você começa a perceber que existe uma outra forma de viver, um jeito mais simples e, principalmente, feliz.

mas é preciso treino. é preciso querer. e é preciso paciência. nada acontece num passe de mágica e tudo depende da sua decisão de escolher ver diferente. e você já sabe o quanto eu confio em você pra isso, né?

compartilhar as nossas histórias é importante porque nos ajudam a criar uma ligação com quem ouve. mas, para mim, o principal é sempre oferecer uma saída, é ser uma fonte de esperança no mundo. já existem cantos escuros demais pra a gente continuar a apagar as luzes.

sobre ter coisas bonitas

sobre coisas bonitas

sabe, uma das coisas legais de ser uma Correspondente Kipling é que eu tenho acesso aos produtos da marca e até posso levar alguns pra casa. você já sabe que eu sempre tive meio que um problema de investir no que eu achava mais barato/em conta e me virar com uma qualidade ~mais ou menos~, mas toda essa experiência me mostrou uma lado diferente das coisas todas.

já me falaram muitas vezes e eu custei pra entender: ter coisas bacanas demanda uma autoestima bacana. tem, sim, relação entre uma coisa e outra. como você vai ter coisas bonitas e legais se não acha que merece coisas bonitas e legais?

daí que no final de janeiro eu fui na loja da Kipling do Shopping Cidade de São Paulo (lá na Paulista), escolher alguns produtinhos para mim e acabei com três: uma mochila e duas carteiras. a mochila que eu escolhi é a Deeda, que eu tava namorando desde que fiz o post para a Seleção de Correspondentes. é uma mochila espaçosa, que tem um lugar especial pra laptop e tudo o que eu preciso pra ser a freela incrível que sou.

as duas carteiras são por um motivo: comprei uma maior e que combina com a mochila (sou dessas) porque amei o tamanho e as mil divisórias, e uma menorzinha e colorida. a ideia é poder trocar de carteira conforme a bolsa – se for usar uma menor eu não preciso levar meu cartão dentro do RG como fazia sempre. mas é também uma questão de saber que carteira é algo que desgasta com o tempo, então é bom ter uma de reserva.

nessa semana que eu já comecei a usar essas coisinhas, principalmente a carteira, eu me deparei com uma sensação muito legal. pensei mais de uma vez: ‘puxa, como é legal ter uma carteira lindona e de um material incrível’ e acho que isso foi o mais bacana de tudo.

sabe, a gente merece ter coisas bonitas. merece ter uma blusa que não esgarça na primeira lavagem, um sapato que não fura depois de dois meses de uso, uma mochila de trabalho que vai durar a vida inteira. e, mais do que ter coisas bonitas, a gente merece também cuidar com carinho dessas coisas que a gente tem, porque, no fim das contas, elas são instrumentos do nosso trabalho e da nossa missão no mundo.

pode ser que eu não tivesse coragem de gastar 800 reais em uma mochila incrível de trabalho, mas hoje eu já sei que é isso que eu mereço, eu mereço coisas legais e mereço cuidar bem dessas coisas legais, pra que elas continuem sendo legais, sabe?

quanto mais amor a gente coloca no mundo, mais amor recebe de volta e cuidar do que a gente tem e faz é, sim, uma forma de colocar esse amor pra rodar. imagina que louco seria se todo mundo encostasse nas coisas e pessoas pensando assim ‘eu vou colocar amor aqui’. o que será que aconteceria?

eu chuto que o mundo viraria luz. e que isso não seria nem um pouco ruim.

quem lê blogs hoje em dia?

quem lê blogs

eu não lembro exatamente onde vi um comentário desses, mas outro dia apareceu na timeline do Facebook que os blogs estão morrendo e ninguém mais lê o que a gente escreve. que é tudo Youtube, que o que importa são os vídeos e como eles são feitos. que a escrita tá perdendo espaço pro visual e que é isso, é o fim.

de fato, escrever um blog em pleno 2017 parece um desafio e um pouco sem sentido – quem quer ler um textão quando tem tanto vídeo por aí? bem mais fácil apertar o play do que ler 1000 palavras sobre um assunto na internet. tem gente que nem passa do título, num é assim que funciona hoje em dia?

eu sempre fui muito apaixonada pela escrita, e ela já foi a minha maior alegria e maior tristeza ao mesmo tempo, você já sabe disso (se não, pode clicar aqui para saber do que eu tô falando). e, confesso, não tenho muita paciência para vídeos. esse é um dos motivos pra eu ter parado de gravar, há mais ou menos um ano e meio. eu até fazia vídeos pro blog, mas foi uma junção de zero paciência + não tô achando um formato legal que me fez desistir dessa ideia (por enquanto).

é muita ingenuidade nossa achar que só um formato é o ‘certo‘ e que só ele funciona. o Medium tá aí pra não me deixar mentir. mas assim como tem muitos blogs legais e blogs ruins, tem vídeos legais e vídeos ruins. e é bizarro a gente acreditar que todas as pessoas vão receber a nossa mensagem da mesma maneira e pelo menos formato (spoiler: não vão).

o que eu quero dizer com isso é: por que fazer qualquer coisa, se não por um motivo verdadeiro? hoje me caiu a ficha de que ainda existia um lugar de mim que escreve no blog por um benefício próprio, atrás de alguma coisa que eu acho que vai me fazer feliz. eu sei bem o que é isso: reconhecimento. receber o reconhecimento alheio ainda me parecia tentador.

ao mesmo tempo, eu tô vendo que isso não vai dar certo. não vai dar certo porque o que eu tô buscando não tem nada a ver com o blog, e sim com uma sensação. e esse é só um lugarzinho onde eu vou atrás disso.

acontece que eu já sei que eu tenho muita coisa pra entregar pra vocês. eu sei o quanto as pessoas vem aqui atrás de um bálsamo, de uma sensação gostosinha, de um abraço e uma xícara de chá. mas eu tava regulando a água e me limitando batidinhas nas costas à la Sheldon. mas não mais.

não mais porque as pessoas ainda leem blogs, sim. ainda existe um carinho por essas páginas criadas com tanto amor e tantas palavras pessoais. e também tem lugares pra vídeos. tem lugar pra todo mundo, gente. o que importa não é o que você faz, é como faz. com que sensação? o que você tá ensinando pro mundo toda vez que liga uma câmera ou escreve um textão?

pode ser raiva. pode ser rejeição. pode ser um pedido por reconhecimento. pode ser uma vontade de ser aceita. ou pode ser amor. você pode ensinar o amor e ser um ponto de luz num mundo tão, tão, escuro. eu tinha escolhido ficar em cima do muro. até descobrir que o ‘em cima do muronão existe: ou você escolhe por uma coisa ou por outra. eu tava escolhendo continuar pedindo ao invés de entregar.

mas eu quero ensinar amor. eu quero colocar pra rodar uma coisa que existe em mim e que pede todos os dias pra ser ouvida. é um alarme que toca incessantemente pedindo atenção, mas eu viro a cara e coloco uma música alta pra fingir que não tô ouvindo.

como é que você faz pra se distrair do seu alarme? tanto faz se você escreve, se grava, se desenha ou se canta. o que é que você tá ensinando quando faz o que faz? a boa notícia é que se você tava passando uma coisa que não acha que é legal, tá em tempo de mudar de ideia.

então, quem lê blogs hoje em dia? as justificativas podem ser muitas: quem não gosta de vídeo, quem é old school, quem é mais velho e não se dá bem com Youtube, quem também escreve blogs, quem ama ler. ou pode ser mais simples: quem tá atrás do que eu tenho pra entregar. e ponto final.

não é mais uma questão de ‘o que eu quero‘. tem gente precisando de mim. será que eu vou mesmo continuar regulando a água do chá quando tem alguém morrendo de frio na minha frente?

dá um arrepio só de pensar. diante disso, então, eu decido entregar tudo o que eu tenho pra salvar você que tá do outro lado da tela dessa sensação horrível que a gente tanto conhece. e mostrar que existe SIM um outro jeito de viver. e nessa a gente se ajuda e caminha junta pra esse lugar feliz.

o blog deixou de ser um projeto meu pra ser uma ferramenta pra vocês, pra quem precisa, pra quem quer mudar o que sente todo dia, quando acorda atrás do amor que tanto busca. eu decido aceitar a minha missão e ser uma referência.

eu me comprometo a aceitar o amor. e agora me comprometo a compartilhá-lo também.

tomar chá na xícara de café não tem graça, no fim das contas.

 

diário #83 – uma luzinha e uma intolerância

luzes

se a meta é ser feliz, porque a gente faz tantas coisas que vão no sentido contrário? na última semana eu me peguei pensando muito no quanto a gente se trai, vai atrás daquilo que não é bom pra gente e esquece que o que a gente mais quer e mais merece nessa vida é ser feliz.

é tipo eu com o leite. eu tenho intolerância a lactose e me sinto muito mal se tomo muito leite ou então se como muito queijo. mas chega o fim de semana e eu não quero nem saber disso, só penso em devorar três pedaços de pizza e comer de baciada o molho de gorgonzola que a roomie fez pra macarronada de domingo. daí chega segunda e eu tô com a barriga inchada, o rosto doendo por causa da sinusite e uma dor de cabeça horrorosa…. tudo por causa desses excessos.

é uma coisa que faz mal pra mim, mas ainda assim eu quero fazer. no fundo, não me faz feliz, mas quando eu estou lá comendo garfada atrás de garfada do molho de gorgonzola eu me distraio com a conversa e as risadas e esqueço que aquilo vai me fazer mal. eu penso ‘ah, não vai dar nada’ quando eu sei que vai dar sim e que eu vou reclamar disso depois.

com quantas coisas a gente faz esse mesmo movimento? quantas vezes por dia você faz coisas que vão te fazer mal, mas vira o rosto pra não enxergar e fingir que nada está acontecendo? a gente não olha pros verdadeiros motivos, para os porquês, e depois fica ‘surpresa‘ com a repercussão daquilo. ué, se eu sou intolerante a lactose, É ÓBVIO que comer qualquer coisa derivada do leite vai me fazer mal. porque eu acho que dessa vez ‘vai ser diferente’? num vai.

e aí a gente vai levando a vida assim, crente de que o problema é o mundo que não entende o que a gente quer e cega pro que a gente sente. jogando pra fora uma coisa que deveria vir de dentro. enquanto a gente acreditar que a nossa felicidade é responsabilidade de outra pessoa, de outra coisa, e não começar a olhar pro que a gente quer de verdade, o vazio que a gente sente vai continuar lá, crescendo cada vez mais, até que engole tudo e apaga as luzes do mundo.

pra voltar a ver as coisas como são, a gente tem que dar uma cavadinha até encontrar aquela luzinha insistente que pisca e pisca e pisca mesmo quando a gente faz maratona de série no escuro de um sábado a noite e acha que o acender e apagar são só os faróis passando na rua.

tem que querer olhar pra ver de verdade, né?